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Carlos Frederico

Cronicas Pitorescas da história do Brasil IX

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Carlos Frederico Corrêa da Costa
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cfccosta@terra.com.br

Palavras em Vão, Armas na Mão

No dia 4 de abril de 1563, uma sexta-feira santa, a aldeia de São Vicente estava sob as ameaça de invasão pelos índios carijós. A audácia dos indícios, sua incrível agilidade, os sentidos aguçados pela vida na selva e o conhecimento de cada palmo do terreno tornavam praticamente invisíveis os atacantes, e no mais absoluto silêncio eles tinham cercado a aldeia.

Quando os portugueses se deram conta do ataque iminente, trataram de reforçar as posições de defesa ao longo das paliçadas de pau-a-pique. Estavam na aldeia 1200 homens, armados com 200 arcabuzes (fuzis primitivos, uma espingarda antiga), e tentando evitar uma tragédia, padre José de Anchieta adiantou-se até a beira da paliçada e com voz firme e serena ele se dirigiu aos índios, invocando os princípios cristão, mas a resposta foi uma flecha que se cravou na paliçada.

Anchieta tentou continuar o sermão, mas outras flechas zuniram no ar, porém nenhuma o atingiu. Os índios o respeitavam, mas ele sentiu que a ocasião não era favorável ao diálogo, então, com gestos calmos e serenos, deu meia volta e, andando devagar, retornou à sua capela e assim que ele entrou, uma algazarra infernal estourou na aldeia. Os carijós atacaram, sendo recebidos à bala pelos portugueses, muitos índios morreram e os sobreviventes fugiram assustados.

Dias depois, numa carta ao seu superior, padre Diogo Laynez, o padre José de Anchieta lamentava os acontecimentos e admitia que nem sempre a palavra da fé tem o poder de iluminar os corações: "Para não morrer, tivemos que matar. A palavra da fé não foi o suficiente para conter os tacapes e as flexas. Mesmo contra os princípios cristão, não houve, nesse caso, melhor pregação do que o uso das armas".

Os Genros Privilegiados

O genro é uma instituição universal. Em todos os cantos do planeta e desde as épocas mais remotas, os rapazes casadouros sempre deram preferência às filhas dos poderosos, e os poderosos sempre fizeram muitas coisas em favor dos maridos e suas filhas.

Em 1559, na época em que Portugal era governado pela rainha-viúva Dona Catarina, o coração de mulher falou mais alto, privilegiando uma amiga, Luiza Monjolo Rabello, também viúva, que tinha duas filhas solteiras.

De acordo com os costumes da época, a moça que pretendesse se casar deveria dar um dote ao noivo, mas a viúva Luiza não tinha dote nem para uma, quanto mais para duas filhas, e aí então pediu uma ajuda à rainha Dona Catarina, que prontamente mandou lavrar um alvará, concedendo o cobiçado emprego vitalício de escrivão da fazenda real ao moço que se casasse com uma das filhas de sua amiga.

Tratava-se de um dote realmente muito tentador e logo em seguida as duas filhas de Luiza Monjolo Rabello noivaram e casaram na mesma época, entretanto, como o alvará fazia menção genérica a uma das filhas, sem especificar qual delas, os dois genros se julgavam com direito à nomeação.

Foi então encontrada uma solução salomônica, o ordenado de oitenta mil réis, extremamente generoso, foi dividido entre os dois genros, que ganhara empregos vitalícios na fazenda real.

Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (Adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 41-43.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS

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