dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Carlos Frederico Corrêa da Costa
E-mail cfccosta@terra.com.br
O Sufoco do Noviço
Os jesuítas não toleravam o amor-livre. Eles eram muito severos, até mesmo com os leigos que integravam a Companhia de Jesus (Ordem dos padres jesuítas), e exigiam o máximo de respeito para com as mulheres e em especial em relação às índias que, por seus hábitos culturais, andavam nuas entre os homens. Os jesuítas entendiam que para os índios não havia maldade na nudez, mas para os colonizadores a nudez era sempre tentação.
Acompanhando os primeiros padres que aqui chegaram, veio Pedro Dias, um noviço da Companhia de Jesus, que ainda não tinha feito os juramentos (obediência, pobreza e castidade),e Pedro Dias ao ver Terebê, uma das filhas do cacique Tibiriçá, foi tomado de amores pela moça, que também se enamorou do rapaz. Como ele ainda não tinha feito os juramentos, tudo poderia se resolver de uma forma rápida e simples, já que havia afeição entre os dois. Os costumes indígenas permitiam que ele a tomasse como mulher sem maiores cerimônias.
Entretanto, os jesuítas não entenderam assim. Como ainda não tivesse feito os juramentos, a quebra do celibato representaria um pecado venial, mas pesar da pouca gravidade do pecado, não deixava de ser um pecado, pois, era preciso solicitar a Roma um relaxamento de voto. Aquilo demandaria, no mínimo, uns quatro meses, e enquanto esperava a resposta de Roma, Pedro Dias ficou sob severa vigilância, tendo seus passos controlados de manhã à noite pelos jesuítas, e sob hipótese alguma ele poderia se aproximar de Terebê.
Finalmente chegou o tão esperado relaxamento de voto, assinado por Inácio de Loyola, superior da Ordem Jesuíta, que mandou uma carta ao superior da missão, jesuíta Luiz de Gran, com uma ordem para que o casamento fosse realizado de acordo com o rito cristão.
A Lição da Espada
Martim Afonso de Souza, fundador da primeira vila do Brasil, São Vicente, hoje cidade do estado de São Paulo, por solicitação de seu pai, foi recebido como aluno no castelo de Gonzalo de Córdoba, erudito e nobre espanhol, que lhe dedicou muitas atenções. Ali Martim Afonso aprendeu as artes da administração dos negócios e do comando dos homens. Concluída a temporada de aprendizado, Gonzalo de Córdoba resolveu dar um presente ao discípulo tão aplicado e colocou no pescoço de Martim Afonso um valiosos colar de ouro.
O presente feriu o orgulho do jovem, que via naquele gesto nada mais do que uma retribuição aos muitos favores então prestados por seu pais ao nobre espanhol. E com firmeza, mas sem arrogância, tirou o colar do pescoço e devolveu-o a Gonzalo, dizendo que não poderia aceita-lo. Gonzalo compreendeu a atitude do jovem Martim Afonso, sentiu que estava diante de um verdadeiro fidalgo e aceitou o colar de volta. Era preciso fazer alguma coisa para demonstrar ao jovem o estimado discípulo a admiração e o respeito que por ele tinha, e num gesto de rara fidalguia, tirou do cinto a própria espada e a entregou a Martim Afonso, como que se desculpando:
- Ora, senhor, bem vos entendo. Em lugar de honrarias, deveis preferir as armas.
Martim Afonso esqueceu por alguns momentos as maneiras solenes e abriu um largo sorriso, aceitando com muita estima aquele inesperado presente. Ao desembainhar a espada para sentir-lhe o peso, reparou que havia inscrições nos dois lados da lâmina. Em um dos lados havia uma frase gravada no metal: "Não me saques sem razão". E no outro lado, outra frase: "Não me embainhes sem honra".
Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 30-33.
*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS
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