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Cronicas Pitorescas da história do Brasil X

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Carlos Frederico Corrêa da Costa
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O Escravo Pintor

A maioria dos senhores considerava seus escravos tão somente como se fossem máquinas para realizar trabalhos de força bruta. Havia, entretanto, alguns mais esclarecidos que tratavam de aproveitar as qualidades dos seus escravos, como forma de aumentar sua fortuna.

Vejamos a história de Manoel da Cunha, filho de um branco com uma negra, escrava da família do cônego Januário da Cunha Barbosa, que desde pequeno demonstrou grande inteligência e uma acentuada tendência para desenhar e pintar figuras, e por isso seus donos mandaram-no para o atelier de João de Souza, um pintor afamado.

O talento do negrinho se mostrou tão promissor, que resolveram manda-lo continuar os estudos de arte em Lisboa, não como uma homenagem à sua inteligência, mas pelo lucro, pois, naquele tempo mestre-pintor era uma profissão lucrativa, e assim, quando retornasse de Lisboa, formado pelos mestres europeus, ele certamente seria uma esplêndida fonte de renda para seus senhores, e foi justamente o que aconteceu.

Mas o escravo Manoel da Cunha era uma alma sensível, ele queria ser livre para se dedicar à sua arte, e então resolveu comprar sua carta de alforria, mas como o dinheiro que ganhava de dia era todo da família do cônego Januário, passou a trabalhar também por sua conta à noite, dando lições de desenho e fazendo pinturas de encomenda.

Trabalhava muito, mas nunca podia juntar todo o dinheiro que seus senhores estipularam para sua liberdade, entretanto, as luzes da Europa tinham plantado no seus espírito a idéia de liberdade.

Havia no Rio de Janeiro uma família negra, rica e com prestígio, era a família Dias da Cruz, que emprestou a Manoel da Cunha a importância que faltava para completar o preço da sua liberdade, uma liberdade que ele conquistou com o seu talento e o seu trabalho.

A Grandeza de Souza Neto

No desenrolar da Guerra dos Farrapos (ver A Casa das Sete Mulheres, seriado da Globo), uma tropa governista de 1.500 homens estava ocupando a cidade de Rio Pardo, posição de grande valor estratégico, e o general republicano Antônio de Souza Neto, embora contasse com uma força de pouco mais de 900 homens, resolveu atacar a posição inimiga.

Chegou a Rio Pardo na madrugada de 30 de abril de 838 e de tal modo dirigiu o ataque, que em puçás horas tinha se tornado senhor da praça de guerra, derrotando o inimigo que fugiu, deixando para trás 370 mortos, muitos feridos e prisioneiros, entre eles o preto alforriado José Joaquim de Mendanha, respeitado maestro e chefe da banda governista.

Ao receber os prisioneiros, o general Neto garantiu que todos seriam tratados com dignidade, que podiam ficar tranqüilos. Animado com o acolhimento do general, maestro Mendanha deu um passo à frente e disse que desejava pedir-lhe um favor.

- O que queres? - perguntou o general Neto.

E a resposta do maestro Mendanha não se fez esperar.

- Saiba Vossa Excelência que no combate faleceu o coronel mineiro Guilherme José Lisboa. Esse herói poderia ter se salvado, pois que os seus homens, senhor general, o intimaram que se rendesse, e que se assim o fizesse, nada lhe aconteceria, mas ele não aceitou, e mesmo depois ter sido ferido por lança e bala, continuou a pelejar, e afinal morreu e lá está o seu corpo atirado atrás da igreja, pois, com a as permissão, senhor general, eu queria enterrá-lo com dignidade.

É justo o seu pedido - disse o general. Que lhe seja dado um enterro digno. Horas depois, o corpo do coronel Lisboa era enterrado, e junto à sepultura estavam ali postados o general Neto e os oficiais superiores do Exército Republicano, numa demonstração de respeito ao soldado inimigo que soubera morrer com honra.

Referência Bibliográfica

COSTA, C. F. C. da (adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da História do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 44-47.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS

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