dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:03
Carlos Frederico Corrêa da Costa
E-mail cfccosta@terra.com.br
Povo prende o Governador
Em Pernambuco, no século XVIII, era comum formar-se uma espécie de procissão chamada Nosso Pai, que percorria as ruas fazendo orações, acompanhando o padre que ia levar a comunhão aos enfermos impossibilitados de sair de casa. Na caminhada em direção à casa do enfermo, todas pessoas por onde a procissão passava juntavam-se ao cortejo em sinal de respeito e depois aguardavam na frente da casa, rezando, até que a comunhão fosse dada.
No dia 9 de março de 1666, um cortejo muito especial do Nosso Pai formou-se nas ruas de Recife. Naquela época, a capitania de Pernambuco estava entregue aos desmandos do governador Jerônimo de Mendonça Furtado, homem rude e desonesto, temido e odiado pela população, que nada podia fazer contra ele, pois andava sempre acompanhado de uma numerosa, truculenta e bem armada escolta. Apesar do seu temperamento violento, Mendonça Furtado respeitava as manifestações religiosas, e costumava acompanhar o cortejo Nosso Pai, como forma de demonstrar que naquele peito rude havia um coração piedoso.
No dia 9 de março de 1666 uma procissão do Nosso Pai passou defronte ao Palácio do Governo e, como de costume, Mendonça Furtado e seus guarda-costas juntaram-se ao cortejo, mas, aí tiveram uma surpresa, tratava-se de uma falsa procissão, uma trama planejada pelo juiz André de Barros Rego, apoiada pelos cidadãos e contando com a conivência do padre.
Assim que o governador e seus capangas juntaram-se ao cortejo, foram presos e amarrados, tudo muito rápido, sem tempo para reagir. Estava concluída naquele momento a primeira parte do Motim do Nosso Pai, como ficou conhecido na história esse insólito episódio.
A segunda parte foi a deportação do governador para Lisboa, com um alentado sumário de culpa encaminhado aos juízes da Corte. Jerônimo de Mendonça Furtado foi condenado à prisão perpétua numa fortaleza da Ásia.
O testamento de Adão e Eva
Desde o seu descobrimento o Brasil passou a ser assediado pela cobiça das grandes potências da época, principalmente França e Holanda, que aqui aportavam com suas naus em busca de riquezas e com o propósito de se apossarem de partes do nosso território.
Lá por volta de 1554, os franceses tomaram Cabo Frio e, no ano seguinte, começaram a ocupar a região da Baía de Guanabara, sob o comando do audacioso almirante Nicolau Vilegaignon. A intenção dos franceses era fundar uma cidade no "continente" brasileiro, uma cidade que se chamaria Henriville, em homenagem ao então rei da França, Henrique II, uma cidade que seria a capital de uma imensa colônia francesa nas terras do Novo Mundo, a tão sonhada França Antártica.
Mas os portugueses não aceitaram pacificamente a pretensão dos franceses, e então invocaram seus direitos sobre a terra, garantidos pelo Tratado de Tordesilhas, ditado pelo Papa Alexandre VI, que dividira o mundo em duas metades, cabendo uma a Portugal e a outra à Espanha.
Sentindo-se contrariado na sua pretensão de criar a França Antártica e indignado com o arbítrio da igreja católica, Henrique II, rei da França, lançou um desafio ao Papa Alexandre VI, exigindo que o Papa lhe mostrasse o Testamento de Adão e Eva, que dava direito aos portugueses e espanhóis sobre as terras do Novo Mundo, e como não existisse o testamento, os franceses se acharam no direito de continuar sua luta pela conquista de um pedaço do Brasil.
Treze anos depois, em 1567, com ou sem testamento, o português Mem de Sá expulsou os franceses do Rio de Janeiro, retomando o tão cobiçado pedaço do Brasil, que hoje é o nosso cartão postal: a Baía da Guanabara.
Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (adaptador de) TERRA, Eloy, 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 75-78.
*Carlos Frederico Corrêa da Costa, é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS
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