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Carlos Frederico

Cronicas Pitorescas da história do Brasil XVI

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Carlos Frederico Corrêa da Costa
E-mail cfccosta@terra.com.br

O Cochilo de Manoel Diabo

Quando prendeu o coronel lega lista João da Silva Tavares e
seus companheiros, David Canabarro deu-lhe garantia de vida, e para cumprir sua palavra de honra, o comandante farroupilha (Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul) estabeleceu rigorosas medidas de segurança, confiando os prisioneiros aos cuidados do fiel e temível Manoel Diabo.

Lá pelas tantas, já quase vencido pelo sono e pelo cansaço, Manoel Diabo transferiu a guarda dos presos ilustres ao sargento pernambucano de nome Segismundo, e aí então, João da Silva Tavares, muito esperto e manhoso, conversando com seu novo carcereiro ficou sabendo que ele sentia saudades da sua terra natal e que gostaria muito de voltar o quanto antes para Pernambuco.

Tirando proveito da situação, Tavares arriscou uma proposta tentadora a Segismundo. Cochichando, como quem conta um segredo importante, falou que tinha um plano já preparado para fugir com seus companheiros para o norte do país, onde se encontraria com tropas fiéis ao governo, mas para dar andamento ao plano ele precisava de uma ajuda, e se pudesse contar com a colaboração de Segismundo, lhe ficaria eternamente grato, e se Segismundo quisesse fugir junto com eles, ainda ganharia como recompensa, a importância de dois contos de réis.

Segismundo nem pensou duas vezes, e enquanto Manoel Diabo dormia placidamente se refazendo do cansaço, Segismundo facilitou a fuga do coronel Tavares e seus companheiros, que saíram de mansinho do acampamento, deixando os ponchos enrolados, como se ali estivessem deitados.

Só pela manhã, com o clarear do dia, é que a fuga foi descoberta, mas àquela hora João Tavares, seus companheiros e o sargento Segismundo já estavam longe. Manoel Diabo, que foi severamente punido pelo comandante David Canabarro, jurou de morte o sargento infiel, mas nunca mais teve oportunidade de encontrá-lo frente a frente.

Os Nobres são Perdoados

No dia 19 de abril de 1792, na cadeia pública do Rio de Janeiro, foi lida a sentença que condenava à morte pela forca os réus da Inconfidência Mineira. Quando o desembargador acabou a leitura e se retirou, uma forte comoção tomou conta do coração dos onze condenados.

Havia três anos que eles não se viam, pois tinham sido mantidos incomunicáveis durante a longa fase de interrogatórios, havendo muitas desconfianças, alguns achando que tinham sido delatados pelos companheiros, outros achavam que alguns companheiros tinham falado demais; alguns achavam que tinham recebido tratamento mais duro do que os outros, mas como o destino comum da morte na forca aguardava a todos indistintamente, resolveram que deveriam se perdoar mutuamente, e então se abraçaram entre lamentações e desespero.

Dos onze que ali estavam dez eram filhos de importantes famílias da nobreza, tinham se envolvido no movimento mais por impulso dos ideais românticos do que propriamente por convicção política. Quase todos choravam e o único que se mostrava calmo era Tiradentes, firmemente apoiado na convicção de suas idéias e no seu sentimento religioso.

Passadas algumas horas, o desembargador voltou com uma notícia alvissareira, anunciando a clemência concedida pela rainha Dona Carlota Joaquina, estando todos livres da pena de morte, menos Tiradentes que, além de enforcado, deveria ser esquartejado e ter seus restos mortais expostos ao público, espetados em postes ao longo das ruas.

Os nobres tinham sido perdoados, mas para os plebeus não houve perdão, exatamente como acontece hoje: perdão para a elite, condenação para o resto.

Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (Adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 61-63.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS

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