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Carlos Frederico

Crônicas Pitorescas da História do Brasil XX

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Carlos Frederico Corrêa da Costa
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cfccosta@terra.com.br

Um assédio sexual

Houve no Brasil Colonial a figura do Contratador das Pedras, uma espécie de agente encarregado de controlar o comércio de pedras preciosas, visando a correta arrecadação dos impostos que eram então enviados a Portugal.

Felisberto Caldeira Brant, um homem simples e sem afetação, foi um contratador que fez grande fortuna e por isso se tornou o alvo da inveja de muita gente, e entre os que invejavam o sucesso de Felisberto Caldeira estava o ouvidor português Dr. José de Morais Bacelar, que toda vez que tinha uma oportunidade, ele ironizava as maneiras simples de Felisberto e lançava dúvidas sobre a origem do seu enriquecimento.

Numa festa na igreja de Santo Antônio, na cidade de Diamantina, nas Minas Gerais, o invejoso ouvidor José

Bacelar, atraído pela beleza de uma sobrinha de Felisberto, encontrou ali uma boa oportunidade para provocá-lo, e aproximou-se da mocinha e jogou uma flor no seu colo, um gesto considerado na época como um desavergonhado assédio sexual.

Felisberto Caldeira segurou o ouvidor pelo braço, repreendeu-o energicamente e exigiu que ele se desculpasse com sua sobrinha, mas ao invés de pedir desculpas, o ouvidor José Bacelar empurrou Felisberto, sacou um punhal e espetou-lhe um golpe que poderia ter sido mortal, mas o punhal resvalou num dos botões de metal da roupa de Felisberto, e a briga foi logo apartada pelo padre Cambraia, que se interpôs entre os dois, erguendo na mão um solene crucifixo.

Quem diria... já ouve tempo em que jogar uma flor no colo de uma mocinha era considerado assédio sexual.

A vingança do paroquiano

Em 1764, o então governador do Rio Grande do Sul, José Custódio de Sá e Faria, mandou construir uma igreja de São José na recém fundada vila de Taquari, e seu primeiro vigário foi o padre Mascarenhas, homem violento, que humilhava os fiéis com seus sermões, tornando-se cada vez mais odiado pelos paroquianos, que se sentiam impotentes diante da agressividade do padre, havendo um clamor silencioso na vila.

Certo dia um dos paroquianos, Manuel da Rosa, cansado de ouvir tantos desaforos, procurou padre Mascarenhas, fingindo-se um fervoroso admirador dos seus sermões, e exagerou bastante nos elogios, dizendo que o padre era até muito bonzinho, e que aquele povo obtuso deveria ouvir coisas ainda mais duras.

Diante do entusiasmo do padre, Manuel da Rosa pediu sua permissão para fazer o sermão do domingo próximo, e aí sim, aquele povo atrasado iria ouvir o que já estava merecendo há muito tempo. Encantado com a atitude do fiel admirador e já antevendo o espanto dos paroquianos, padre Mascarenhas concordou, e no domingo seguinte, terminada as orações da missa, o padre convidou solenemente Manuel da Rosa para fazer o sermão, e sentou-se no primeiro banco.

A surpresa foi geral. Depois de algumas citações num latim bastante estropiado, Manuel da Rosa iniciou o sermão:

- Amados irmãos, escutai-me com paciência, pois o que vou dizer é a expressão da verdade. Quero escangalhar os tratantes, os descarados de Taquari, ainda que, para realizar este desejo, seja obrigado a colocar-me em crítica posição, e talvez não compreendam bem o sentido das minhas palavras, mas, pensando bem, acabarão entendendo o seu alcance.

- Nós vivemos tristes em Taquari, mas, a culpa todos sabemos de quem é, mas, tenhamos paciência, pois os tempos hão de mudar, é impossível que o Governador de Portugal, o Marquês de Pombal, não tenha dó de nós, não se compadeça com as nossas misérias e não faça remover desta terra o pedaço de burro, o grande estúpido, o grande tratante, que é a causa de todas nossas desgraças e que é tão ordinário que nem os bugres se animaram a comer sua carne. É tão ruim, meus irmãos, que nem o diabo há de quere-lo no inferno, tende paciência, portanto, meus irmãos.

Subitamente a igreja se transformou num vibrante auditório, com as palmas entusiasmadas dos paroquianos. Padre Mascarenhas, furioso e vermelho de raiva, obrigou o chefe de polícia a prender Manuel Rosa, que precisou pagar fiança para se livrar da prisão, mas, pouco tempo depois o padre Mascarenhas foi transferido para outra paróquia.

Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (Adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 79-82.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS

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