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Carlos Frederico

O Carisma do Padre Anchieta

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(CRÔNICAS PITORESCAS DA HISTÓRIA DO BRASIL XVII)

Carlos Frederico Corrêa da Costa
E-mail
cfccosta@terra.com.br

Das numerosas tribos tupis, a mais leal para com os colonos portugueses era a dos tamoios, mas os colonos acabaram abusando da lealdade dos indígenas, armando ciladas no meio da mata para capturá-los e escravizá-los, saqueando suas aldeias e não cumprindo as promessas de pacificação, provocando grande descontentamento e criando um perigoso clima de guerra.

Cansados de tanto sofrer com a tirania dos colonos portugueses, os tamoios reuniram as tribos vizinhas sob o comando do cacique Aimbirê, formando a poderosa Confederação dos Tamoios. Depois de alguns ataques malsucedidos, os guerreiros da Confederação reuniram mais forças para a preparação da batalha final, que seria fulminante e devastadora.

Assustados com a ameaça de um terrível confronto, os colonos resolveram enviar dois jesuítas para negociar a paz com os indígenas, os padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, que foram recebidos com respeito, apesar da desconfiança do chefe Aimbirê.

Depois de uma semana de tensas negociações, os tamoios decidiram que Manoel da Nóbrega levaria uma proposta de paz aos colonos, mas José de Anchieta ficaria como refém, para prevenir qualquer manobra solerte dos portugueses.

Quando Nóbrega se preparava para partir, um grupo de guerreiros desconfiados e descontentes, comandados pelo feroz Paranaguaçu, filho de Aimbirê, atacaram a aldeia com a intenção de matar os jesuítas. Nóbrega e Anchieta pretendiam conversar com os guerreiros, mas Aimbirê, conhecendo o temperamento explosivo do filho, achou melhor que os padres se refugiassem no interior de uma pequena capela, erguida no tempo em que ainda havia paz entre os índios e os colonos, pois estariam mais seguros naquele local sagrado.

Porém, nada deteve o ímpeto de Paranaguaçu. Quando ele entrou na capela brandindo o tacape, encontrou Nóbrega e Anchieta ajoelhados, rezando. Era tanta a fúria, que ele não respeitou nem mesmo a atitude pacífica dos padres, ergueu o tacape com o braço musculoso e preparou o golpe mortal para esfacelar a cabeça de Anchieta, e foi então que o padre José de Anchieta levantou a cabeça e abriu serenamente seus olhos azuis, enfrentando o olhar de Paranaguaçu, e no mesmo instante uma força paralisou o braço do guerreiro.

Anchieta levantou-se e passou a mão carinhosamente no ombro do jovem tamoio, e aí começou a falar com sua voz mansa e cheia de bondade, lembrando as tradições da tribo, seus feitos de glórias nos combates, e a nobreza dos gestos nos momentos de perigo.

Era preciso ter grandeza para saber perdoar, e eram os colonos que ali estavam, representados por ele, pedindo perdão e implorando a paz. Lembrou que um forte não repele nunca a mão que o vencido lhe estende, e ele, Paranaguaçu, tão valente, tão varonil, no pleno vigor da juventude, devia ser o primeiro a alegrar-se com a paz, que prenunciava muitos anos de vida feliz; a paz que estava sendo implorada naquele momento.

A cabeça do guerreiro foi, pouco a pouco, se inclinando para o peito, seus dedos foram se abrindo um por um e o pesado tacape caiu no chão com um ruído seco. Quando Anchieta acabou de falar, Paranaguaçu estava de joelhos, com os olhos voltados para o crucifixo no altar da pequena capela.

E assim foi selada a paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses, no episódio que a história registra como o Armistício de Iperoig, em homenagem ao lugar onde o acordo aconteceu (praia de Iperoig, na atual cidade de Ubatuba-SP)

Referência Bibliográfica
COSTA, C. F. C. da (Adaptador de) TERRA, Eloy. 500 anos - Crônicas pitorescas da história do Brasil. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999. p. 68-70.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social, professor no Departamento de História/CPAQ/UFMS

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