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Gabriel Novis Neves

A dor

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Desde os primórdios da humanidade até os dias de hoje, os estudiosos da arte de curar têm a dor como uma das suas principais preocupações. Tentam entender e controlar a sua ocorrência.
 
Os povos antigos atribuíam a dor aos maus espíritos e acreditavam que era uma espécie de punição por atos faltosos cometidos. A medicina era então exercida por sacerdotes, que invocavam os serviços dos deuses para a cura da dor. Eles se utilizavam de remédios naturais, e ofereciam preces e sacrifícios aos deuses que, agradecidos, proporcionavam alívio ao doente.
 
Não vou discorrer aqui sobre a evolução da história da dor ao longo desses séculos. Só registrar que ela foi um dos fatores que mais afetaram o curso da história humana, pois que acometeu e acomete a população mundial indiscriminadamente.
 
Atualmente, de acordo com a ?International Association for Study of Pain? (IASP), ?a dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão tissular real ou potencial?. A IASP destaca ainda ?o reconhecimento de que a dor é complexa, subjetiva e sujeita às particularidades de cada indivíduo, envolvendo dimensões afetivas, interpretativas e comportamentais, além das fisiológicas e sensoriais?.
 
E é dessa dor que escrevo hoje: a dor afetiva, emocional e psíquica. Hoje, a neurociência já descobriu que mente e cérebro são indissociáveis e que aquela angústia ou depressão, por exemplo, podem ser muito mais intensa que a dor de uma fratura - é o que nos explica a psicóloga Dra. Dirce Perissinotti. E ela vai mais além: ?o sofrimento psíquico imposto por um evento doloroso muitas vezes é mais devastador que a própria lesão?.
 
Já existe psicanálise só para aliviar as dores motivadas pelos conflitos emocionais.
 
Os boêmios costumam chamar a dor psíquica de ?dor de cotovelo?.
 
À moda dos antigos sacerdotes, os boêmios têm sua terapêutica médica para a cura de qualquer dor: à noite, dança ao som de muita música ao vivo, com sax, trompete, instrumentos de corda e ritmistas acompanhando boleros, samba canções, sambas de roda e todo tipo da gostosa música cafona feita sob medida para curar a dor de cotovelo. Ah, sim! Uma geladinha para potencializar os efeitos da loira do colarinho branco, e pronto. Eis a cura para qualquer dor.
 
Ao sol raiar, ninguém deixará ?o pronto atendimento? noturno com dores.
 
As dores físicas, quase não existem mais com os modernos fármacos e as suas mais variadas vias de acesso, feitas com total segurança.
 
Em um procedimento cirúrgico o mais seguro de todos em nossos dias é o anestésico, embora o paciente pense sempre o contrário. 
 
Há poucos dias fui submetido a uma punção no meu joelho, desgastado pelo tempo de uso. As pessoas me perguntaram sobre o tamanho da agulha e se tinha sentido dor. Para dizer a verdade não vi o tamanho da ?perfuradora?, e dor não senti.
 
A analgesia decretou o final da dor física. Entretanto, não conseguimos nos livrar das dores psíquicas, ou como dizem os poetas - as dores da alma.
 
Essa máquina maravilhosa que é o nosso cérebro, ou ?célebro?, como batizou o mais novo avecista do Porto, não aceita fantasias da indústria farmacêutica, mesmo amparada pela mais sofisticada das mídias.
 
Estive doente por esses dias e percorri todos os caminhos por mim conhecidos em busca da minha cura. Melhorei, é verdade. Mas, a dor nos leva a percorrer outros caminhos.
 
E foi o que fiz. Embrenhei-me por um totalmente desconhecido. No início deste percurso, o desconhecido causou grande turbulência em minha alma. Mas, por fim, ele se tornou o meu mais caro aliado para a cessação das minhas dores.
 
A mente e o cérebro são indissociáveis. Entrei, pela dor, na medicina do séc. XXI.
 
Esta experiência me fez lembrar John Lennon: ?Não se drogue por não ser capaz de suportar sua própria dor. Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo?.
 
 
Gabriel Novis Neves
30-11-2012

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