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Gabriel Novis Neves

Horóscopo

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Há um tempo perguntei a um antigo e tarimbado jornalista, editor do jornal mais lido da cidade, qual a seção preferida pelos leitores.
 
Sem pensar ele me respondeu: ?horóscopo?.
 
Fiquei surpreso. Imaginava que política, futebol e coluna social seriam os vencedores dessa pesquisa empírica.
 
Os anos se passaram e, quase ao ?dobrar o cabo da boa esperança,? comecei a escrever para jornais.
 
Todas as vezes que encaminho os meus artigos para a redação lembro-me do velho jornalista.
 
Os adversários que havia escolhido ? política, futebol e sociedade, continuam fortíssimos concorrentes para um articulista amador.
 
Imagino ter que enfrentar uma coluna que advinha o futuro das pessoas baseado no estudo do sol, da lua e dos planetas!
 
Com uma atração irresistível na pátria das superstições, quem teria ainda tempo disponível para uma olhadela na seção dos articulistas?
 
Iniciei então a prestar atenção nas pessoas que leem horóscopo através de perguntas discretas, porém especulativas.
 
Sem o apoio de qualquer instituto de pesquisa, fiquei impressionado com o número elevado de leitores que mantém o hábito de consultar o seu futuro antes das manchetes dos jornais.
 
Eu mesmo me descobri um dependente na leitura dessas diárias previsões, seja no trabalho, no amor ou saúde.
 
Interessante, é que o leitor do horóscopo não comenta o seu prognóstico do dia, a não ser para pessoas da sua mais absoluta confiança.
 
A futurologia, mesmo sendo considerada uma ciência astrológica, sofre tremenda discriminação dos materialistas.
 
Politicamente não é correto falar sobre esse assunto, embora seja o predileto dos políticos.
 
Na Bahia, o horóscopo do dia corre três vezes: manhã, tarde e noite ? nos moldes do jogo do bicho.
 
O enorme sucesso dessa leitura é que ela é curta e o seu esquecimento é imediato, não alugando massa encefálica.
 
Pelo menos comigo é assim. Leio com atenção o que os astros dizem e, no final da leitura do jornal, não me lembro mais das recomendações
 
Dia desses recebi um telefonema de um colega exultante com a leitura do meu horóscopo.
 
Enquanto ouvia a leitura sobre o meu futuro, esforçava-me para lembrar daquilo que tinha lido cedo no meu jornal.
 
A felicidade do meu colega me contagiou, não sobre o planejamento traçado pelos astros para este complemento de tempo, mas por saber que tenho amigo.
 
Reconheci no telefonema um especial amigo, embora já tivesse esquecido, ao desligar o telefone, a previsão do meu horóscopo.
 
 
Gabriel Novis Neves

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