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Gabriel Novis Neves

Aposentadoria

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Muita gente pensa que na aposentadoria vai descansar e usufruir o bom da vida. Mas, após alguns dias, se estrepa.
 
Esquece que o trabalho é também um hábito de difícil descondicionamento.
 
Na minha idade já me aposentei meia boca, pois sei que mudar de hábito é perigoso.
 
Ninguém em condições perfeitas de saúde física e emocional consegue suportar um corte violento nos seus afazeres diários e se acostumar a ficar em casa bestando e sem ter o que fazer.
 
Para ficar calmo o aposentado tem que ser, no mínimo, síndico do edifício onde mora.
 
Recomendo essa função, que produz aborrecimentos o dia todo, para a prevenção da Doença de Alzheimer.
 
O idoso perde milhares de neurônios diariamente e, para repô-los, a indicação é estimular a fabricação de novos.
 
Nada melhor que uma contrariedade permanente de intensidade forte.
 
É o santo remédio.
 
O aposentado sofre descriminação dos mais jovens, que o julga como uma espécie de trânsfuga, merecedor de repulsa, especialmente pelos seus colegas de trabalho da ativa.
 
Então, o ex-servidor ou profissional liberal, agora aposentado, começa a fazer o supermercado, frequentar a feira, passear com os netos e, principalmente, ficar em casa.
 
O velho parece pijama, banco de praça, bengala, chapéu e jornal na banca.
 
Quando tira férias ninguém acredita. Pensam em ausência para tratamento de saúde.
 
Na vida é preciso saber subir e também saber cair.
 
Aposentadoria é coisa complicada.
 
Tem que se preparar para atividades alternativas.
 
O grande perigo que ronda a vida do aposentado é ser transformado em moleque de recados, babá dos netos, contínuo da mulher.
 
É um excelente companheiro para carregar compras.
 
Quase todo o seu tempo é destinado a realizar obrigações domésticas.
 
Cuida da cozinha, limpeza da casa, manutenção dos eletrodomésticos, jardim, animais pequenos e o pagamento dos inúmeros tributos para viver com dignidade.
 
Enfim, considero a aposentadoria como ela é uma conquista indesejável.
 
?Nada há pior que gente vadia - ou aposentada, que é a mesma coisa. O tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, não há papel que baste?, já dizia Machado de Assis.
 
 
Gabriel Novis Neves

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