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Gabriel Novis Neves

Dois de dezembro

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É uma data histórica pouco lembrada. Entretanto, para nós cuiabanos, ela tem um significado especial.
 
No dia vinte e nove de outubro de mil novecentos e quarenta e cinco caía a longa ditadura de Vargas.
 
A Presidência da República foi então, provisoriamente, assumida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ministro José Linhares.
 
Imediatamente foram marcadas eleições gerais em todo o país para o dia dois de dezembro. Seriam eleitos o novo presidente do Brasil e os membros do Congresso Nacional ? dissolvido pela ditadura de Vargas.
 
A eleição seria pelo voto direto. As mulheres, pela primeira vez, votaram para presidente no Brasil.
 
Foi eleito, por ampla maioria de votos, o cuiabano Eurico Gaspar Dutra.
 
Empossado, pelo também recém-eleito Congresso, jurou cumprir a Constituição Federal, e assim o fez durante o seu mandato.
 
Mas, o fato importante a que me refiro, é que o cuiabano, do extinto bairro ribeirinho do Grande Terceiro, perdeu as eleições em sua cidade natal.
 
Com essa derrota, o presidente Dutra derrotou também inúmeras crendices que povoavam nossa imaginação.
 
A maior de todas elas era o corporativismo do povo cuiabano, considerada uma sociedade fechada, que só valorizava os habitantes nascidos nesta ?Terra Agarrativa e Linda?.
 
A história do cuiabano de ?tchapa e cruz?, que só via valores nos nativos, se perderam nas águas saudáveis do hoje inexistente ?Córrego da Prainha?, que cortava a cidade e desembocava no ainda não poluído Rio Cuiabá.
 
Dutra perdeu as eleições em Cuiabá para um seu colega militar carioca, cujo slogan de campanha foi uma das peças mais odiosas e preconceituosas que já vi.
 
Seus conterrâneos e adversários políticos gritavam pelos comícios e ruas de Cuiabá esta maravilha que depõe contra a cultura e hospitalidade da nossa gente.
 
?Brigadeiro é bonito, é faceiro, é solteiro e tem dinheiro?!
 
Dutra era um cuiabano muito feio, cabeça chata, sem pescoço, baixo, pobre, falava o ?cuiabanês? e era casado.
 
Eu tinha, na ocasião, apenas dez anos de idade, e me senti ofendido com tamanha discriminação e preconceito contra um cidadão desta terra, que chegou a esse posto máximo graças a um passado ético, eficiente e republicano.
 
Dutra exerceu o poder respeitando a Constituição. Ao término do seu democrático governo, providenciou eleições e as presidiu como magistrado, encerrando com dignidade a sua vida pública.
 
Nasceu e morreu pobre, deixando como legado ao povo brasileiro seu caráter e o amor em servir a pátria.
 
Esquecido na sua terra natal foi, até hoje, o único cuiabano a ocupar a Presidência do Brasil. 
 
 
Gabriel Novis Neves

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