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Gabriel Novis Neves

Terra de índios

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Havia um tempo que era pejorativo chamar alguém de índio ou morar na terra, ainda, deles.
 
Nasci, fui educado, estudei e, quando tive oportunidade, tentei apagar esse preconceito.
 
Como o índio morava na selva, hoje quase em extinção, denominei de ?Universidade da Selva? a burocrática Universidade Federal de Mato Grosso, isso em 1971, durante o Primeiro Encontro dos Reitores das Universidades Públicas em Brasília.
 
Era a nossa meta de intenções para esta parte do Brasil - tão cobiçada pelas nações estrangeiras!
 
O primeiro marco da nova casa de ensino superior foi o Museu Rondon, em homenagem ao grande pacificador das etnias existentes em nosso Estado.
 
Para meu orgulho sou filho do ?Bugre do Bar?, apelido que o meu pai ganhou pela cor indígena da sua pele.
 
Percorri toda a área de atuação da Missão Anchieta ao norte do nosso Estado, cuja sede ficava localizada em Utiarity.
 
Seus membros eram jesuítas, e desenvolveram um trabalho extraordinário durante o choque inevitável dos homens brancos, dito civilizados, com os povos não aculturados.
 
Muitas mortes foram evitadas, porém, o número de mortos quase dizimou civilizações inteiras.
 
Aprendi muito também com os irmãos Villas-Bôas, com Apoena e com Chico Meirelles.
 
Todos foram contratados como professores colaboradores da nossa incipiente UNISELVA.
 
Fui médico de índias e operei algumas delas. Posteriormente, tivemos conosco na UNISELVA o saudoso cacique Mário Juruna, de quem recebeu o seu famoso gravador. Brizola, que era a favor do respeito às minorias, o elegeu Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, a eterna capital da cultura brasileira.
 
Diante de tanta sabedoria e felicidade que encontrei nesses povos das florestas, sempre indagava o motivo de terem lhes tirado quase tudo. Bens materiais e imateriais. Afinal eles eram os verdadeiros donos.
 
Certa ocasião, assistindo no Xingu o Quarup, em homenagem a Noel Nutels, o russo médico dos índios, Cláudio respondeu a minha pergunta inquietante sobre a razão de tanta felicidade dos povos ainda não aculturados.
 
?Eles não conhecem o dinheiro, nem o casamento, nem a propriedade?, disse-me o antropólogo do mato.
 
?Não tinham noção da posse das coisas ou pessoas?.
 
?Fico imaginando - continuou o pensador - até que ponto foi ?negócio? comprarmos, massacrando os verdadeiros donos das terras, o conforto, a riqueza material em troca da felicidade perdida.?
 
Como era bom ter nascido no Brasil antes de 1500, e ser chamado de índio!
 
 
Gabriel Novis Neves

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