No Pantanal, enquanto os esforços para preservá-lo andam a passos de tartaruga, a devastação caminha em grande velocidade. A natureza no Pantanal já pagou caro pelo delírio de projetos faraônicos como hidrovia e rodovia. Durante o regime militar, foi construída uma das obras viárias mais inúteis e desastrosas do país. É a Rodovia Transpantaneira, uma estrada que liga nada a lugar nenhum. Deixando apenas ?feridas irreversíveis? na planície pantaneira.
A idéia do governo era interligar Poconé, no extremo norte do Pantanal, a Corumbá, no extremo sul. Tudo foi feito sem preocupação em conhecer as peculiaridades da região. Resultado: a estrada não foi adiante porque a natureza a derrotou. A estratégia de engenharia não foi suficiente o bastante, apesar de uma grande logística e muitos maquinários, não conseguiu passar da metade do percurso desejado.
Por falta de estudos acerca das peculiaridades da região, ninguém sabia exatamente onde construir as pontes. A estratégia era simplesmente bizarra. Fazia-se o aterro e esperava onde a água ia arrombar, nesse ponto construía-se uma ponte.
Hoje, a Transpantaneira começa em Poconé e termina abruptamente nas margens do Rio Cuiabá. Tem apenas 147 quilômetros e, o absurdo de 126 pontes, quase uma ponte por quilômetro. Pode ser considerado um recorde mundial. A Transpantaneira é intransitável na maior parte do ano. Além do período de chuvas na região, as pontes possuem vãos que pode engolir um carro inteiro se o motorista não for prático e precavido.
Outra ameaça ao Pantanal, poucas pessoas tiveram conhecimento dessa intenção, veio de um ?projeto? que, graças a Deus, foi engavetada em razão de protestos no Brasil e principalmente no exterior. Seria a construção de uma hidrovia, dragagem do leito do Rio Paraguai, ligando a cidade de Cáceres, em Mato Grosso, ao Porto de Nueva Palmira, no Uruguai.
O projeto tinha por objetivo em transformar o Rio Paraguai em um canal navegável 24 horas por dia durante o ano todo. Para isso seria necessário dragar seu leito, corrigir curvas e dinamitar algumas barreiras rochosas ao longo do seu leito, para garantir um calado mínimo de 3 metros de profundidade para grandes embarcações, mesmo no período de seca.
A intenção, a princípio, era retirar do leito do Rio Paraguai cerca de 22 milhões de metros cúbicos de terra, areia e pedra, em plena planície pantaneira. Só para conhecimento, as barreiras rochosas como as que existem nas imediações de Porto Murtinho, conhecida como ?a rolha do Rio Paraguai?, represa o rio e seus afluentes, e é responsável pela inundação do Pantanal. A estação chuvosa (cheia) é quem dita à dinâmica do ecossistema pantaneiro. Para os pantaneiros, ?sem cheias, Pantanal não é Pantanal?. Assunto frequente em suas rodas de tereré.
Essas intervenções monstruosas: Transpantaneira e Hidrovia Cáceres a Nueva Palmira, além de desperdício do dinheiro público, poderiam transformar em um fator de morte para os animais silvestres por atropelamento ao tentar atravessar a rodovia, fugindo do fogo ou em busca de abrigos para sua prole por ocasião das cheias. Por ouro lado, drenar parte do Pantanal, como conseqüência, o comprometimento de boa parte do ecossistema pantaneiro.
Fontes: in-loco/acervo próprio/livros e documentos sobre a região
SGT LÍDIO DE SOUZA NETO - ESPAÇO VERDE