dothCom Consultoria Digital
Publicado em 06/06/2011 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:03
Vale a pena retornar à Terra Natal?
Como se diz: saudade dói mais que dor parto, de dente e crise renal. E vamos ficando cada vez mais cheios de saudades. Saudades do imaginário e da gente mesmo, que o tempo implacável não perdoa. Saudades que inspiram poetas, escritores e músicos.
Heráclito alertava: "Um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez - nem o homem e nem o rio - serão os mesmos". Quem ousa desafiar esse preceito, com planos de "um dia" voltar à sua terra natal para reencontrar a paz e a sonhada felicidade pode acabar decepcionado.
Um amigo - morador numa grande capital e com saudades dos tempos de infância e juventude, ansioso para rever pessoas e lugares cultivados carinhosamente em sua memória, decidiu voltar à sua terrinha. Imagens afloravam: a turma da escola, das peladas e os primeiros bailes e namoradas: tudo vivo - bem presente! Seus planos: reencontrar a turma e matar saudades, reatando com seu passado. "Como será bom!"...- pensava ele.
Assim, preparou-se para curtir paisagens e pessoas - "imutáveis" à ação do tempo. E vieram as decepções: A cidade não era mais a mesma. A praça central - antes charmosa e arborizada, com a fonte luminosa - estava desfigurada, sem verde e flores, agora cheia de barracas e ambulantes. O coreto, abrigava mendigos. A outrora imponente igreja, mal cuidada, sem as cores originais e o relógio na torre quebrado. E então foi ao cinema - onde testava seu inglês nos cartazes dos filmes e trocava gibis. Um susto! No prédio uma igreja. "Sacanagem! Um supermercado de esperança com pastores no lugar dos meus primeiros heróis"! Resmungou.
E depois, foi à sorveteria da praça, onde começou pela procura dos antigos companheiros. Em cada informação, uma dor! Poucos deles continuaram ali e considerou decepcionante o papo que teve com alguns. Afinal! Viviam realidades diferentes. A maioria partiu para estudar e trabalhar e poucos - os mais abastados - retornaram para exercer a profissão... Aqueles que não estudaram, eram bancários, comerciários, trabalhavam na prefeitura ou eram braçais... E o estádio de futebol? Pouco freqüentado! O "timão" acabara... O recinto da Festa do Peão era a coqueluche... As quermesses da praça, desmotivadas, e a banda de música já era... Os sitiantes da zona rural viraram bóias frias nos canaviais, morando nos conjuntos do BNH ... Os viciados em drogas não eram poucos... Os hábitos mudaram e a visita aos amigos, coisa rara: a televisão aprisionara os moradores em casa... O clube recreativo, dos bailes charmosos de orquestras, deixara de ser referência dos eventos sociais... Personagens ilustres da cidade já tinham morrido. Aí se deu conta que o tempo havia passado inexoravelmente também na pequena cidade.
Próxima parada: o poção do córrego nos fundos cidade, onde a turma nadava e pescava. O local assoreado e as águas poluídas . "Os peixes sumiram." - avisa um transeunte, culpando a usina de açúcar. Adiante avista o prédio novo, enorme: o presídio de segurança máxima, contrapondo-se a pequena cadeia de antes, só para bêbados. Outras mudanças: a serraria fechara; não havia mais árvores. O campo de bocha desativado e a alfaiataria tradicional cedeu lugar a casa de jogos eletrônicos. Finalmente, foi rever o colégio. Da imagem imponente do prédio, pouco restou. Grades de ferro no lugar das persianas de madeira, estacionamento de veículos no lugar do jardim e alunos trajando roupas comuns, ao invés de uniforme.
Mas era inegável: a cidade crescera, mudara o perfil econômico-social, atraindo gente e perdendo a aura de "reino encantado", imune ao preço do progresso, às transformações provocadas pela globalização inclusive.
Esse relato, serve de reflexão a gente interiorana das grandes cidades. Aliás, o escritor José Saramago aconselha: "é preciso construir sua cidade pequena dentro da cidade grande." Para isso, basta baixar a guarda e ampliar as relações humanas. Afinal, felicidade não escolhe lugar! De leve...
Manoel Afonso - (Comentarista da TV. Record-MS )
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