Maria de Lourdes Medeiros Bruno
“Escolher a própria máscara”
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Clarice Lispector e as passagens de um cotidiano inesperado, hoje vivenciado.
Será que tudo passa? Mesmo?
Em se tratando da palavra Cotidiano e focando no “agora”, em 2 de março de 1968,Clarice Lispector abordou no texto intitulado “PERSONA” um aspecto que hoje que hoje é primordial e indispensável: a máscara.
Eis um exemplo a ser destacado , enriquecendo mais o momento sobre Clarice Lispector:
“Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e apresentar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é”
Destacando a expressão textual “gesto voluntário”, exposta por Clarice Lispector, hoje, tornou-se obrigatório por questões de saúde, de vida e de sobrevivência.
O uso da máscara não traduz, hoje, o encantamento, a fantasia e a emoção. “E sim “o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça altiva como de quem superou um obstáculo. A pessoa é.” Porque vai proteger o ser humano, diante das mudanças de um tempo novo e incomum.
Destaca-se uma linguagem incisiva já que em 1968, o que a máscara representava, mas sem deixar as indagações existenciais, com a expressão: “E solitário”.
Quando se escolhe algo ou alguma coisa cabe somente ao próprio ser a palavra final. O ser com o ser no seu estado de liberdade, que não deve se tornar apenas uma representação diante de si mesmo. A escolha e a vida são suas.
Fundamentando o estar preso em “se afivela” a máscara torna-se também o eu de cada um. E sem o tempo determinante do estar sem ela.
Mas o obstáculo deve e pode ser superado. E hoje, em dia, cada um tem um.
Continuando a trajetória, há um outro momento textual: o do acontecer.
“Se bem que pode acontecer uma outra coisa que me humilha contar.
É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro, ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão”
E ao cair “pedaços irregulares” a nossa apresentação no palco do tempo é interrompida, sem plateias ou palmas.
Máscaras, atores e atrizes de um teatro dramático e trágico quase que num só ato.
“Eu sou a força” não existe mais! E aí que a palavra ouvida de Clarice Lispector para em tempos de 2020 passou a ser vivida.
Eis a fantasia do rosto coberto que passou a ser agonia do rosto descoberto. O hoje não pode mais ser revisto.Vivido e direcionado. Caminhos mudados e rotas alteradas.”Nossos caminhos não são os mesmos!”
Explora-se – “de repente” no agora, quando o Mundo desmorona e todas as máscaras caem e vem apenas uma: “máscara de guerra”.
Mais uma reflexão literária chegando na existencial para os tempos do hoje.: “...cresta-se toda no rosto como lama seca...” E já que estamos tratando das máscaras “crestar” tem um valor significativo e forte do “queimar”, do “tostar” diante daquilo que não temos forças suficientes, por ser desconhecido, rápido e violento.
O desconhecido tem todos os caminhos do corpo do ser humano.
E Nós, pensantes, sabemos os caminhos dele?
Resposta difícil porque cada dia um fato novo aparece diante do Homem do Agora,2020.
E em 1968 Clarice Lispector abordava numa linguagem literária e intencionalmente, para o fato, em si algo que hoje o ser humano usa para tratar de uma realidade que lhe foi imposta : o uso da máscara .
De 1968 a 2020, 52 (cinquenta e dois anos) nos separam, mesmo que sejam através da Literatura. Mesmo assim o momento do agora, em se tratando do uso das máscaras, nos faz lembrar fatos que foram apresentados, no texto “Persona”, da referida autora.
E a vida mudou. Transfigurou-se no famoso e comum instante.
Do contexto da Escritora para Mundo do Agora, onde a máscara já se faz presente, não para o contexto da dramaturgia, mas para o outro palco: o da vida.
Eis um outro momento de Clarice Lispector podendo ser visualizado no hoje. O agora.
“Eis o rosto agora nu, maduro, sensível, quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável :este ser morrerá”
Parte-se da Literatura, da Arte, para o Cotidiano, que é implacável, diante do que está acontecendo, neste espaço real e próximo de cada um de Nós.
Na expressão “sou implacável”, da própria Escritora, ressalte-se a presença da morte, na vida de qualquer ser humano, sejam quais forem as circunstâncias.
Ou então renascer por ele mesmo. Eis a presença divina diante daquele que é humano.
Maria de Lourdes Medeiros Bruno
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro..Nova Fronteira.1984. pag.: 100.
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