Estávamos no outono de 2002 e, de tanto ouvir longos causos, longas prosas e longos relatos, parcimoniosamente introduzidos com descrições repletas de detalhes, onde o cenário, o clima e os ambientes eram ilustrados, verbalmente, através de sensações, cores, cheiros, explicações sobre a mata, os corixos, os rios, os bichos, direções dos ventos, chuva, seca e tudo originava das observações, vivências, experiências e uma concepção da vida onde a natureza era suprema e respeitada, a natureza era o norte, soberana, era a miragem, a lua exercia uma certa divindade, ditava o favorecimento do plantio, o corte do cabelo, as alterações climáticas, o nascimento das crianças, dos animais.
Era à partir dessas referências que todos os segmentos e expressões da vida eram entendidos, os movimentos das marés, o canto de um pássaro, a manifestação ou doença de um animal, tudo poderia ser prenúncios de catástrofes, chuvas, estiagens, alegrias e desgraças.
Ingenuamente, de tanto ouvir e viver isso tudo, eu comentava sobre os feitos daquele homem, revelava seu estilo de vida, seus trejeitos pantaneiros.
Um dia, uma querida amiga que fazia Doutorado numa parceria entre uma universidade pública brasileira e uma universidade em Portugal, cujo objeto de sua tese era encontrar os paradigmas existentes entre o turismo rural europeu e o turismo rural nascente no Brasil, num viés econômico, me pediu para conversar com o Oswaldão com o intuito de entrevistá-lo para registrar como eram a percepções e a aceitação de um homem eminentemente pantaneiro sobre o advento da tecnologia e da ocupação no Pantanal relativa a ótica do turismo rural, como esse homem, com essa visão da vida, cuja existência e habitação no Pantanal era restrita a família e a poucos funcionários, onde ele, homem pantaneiro, exercia naquele cenário, até então, apenas práticas profissionais e familiares muito intimistas e contextualizadas com sua subsistência, como ele recebia essa nova modalidade, a atuação turística dentro do Pantanal.
Marquei a conversa entre eles, a minha amiga doutoranda e o Oswaldão na minha casa para que a conversa tivesse características informais e fluísse de maneira despojada.
Eu não participei da conversa, os deixei livres, a sós, afim de que o aproveitamento da entrevista fosse o mais positivo possível e foi, como todas as prosas dele, muito espichadas, cheias de explicações, causos, com longas pausas para elaborar a fala, desenvolver com exatidão a linha de raciocínio, acender um cigarro, pensar, lembrar, ter certezas e responsabilidades orais para só depois falar, algo raro na atualidade, isso é algo que me chama muita atenção, me faz muita falta, eu vi o meu pai, ao longo dos anos, com um livro na mão, o vi preocupado com a forma de se expressar, embora ele falasse muitas coisas de maneira ?errada?, as leituras e conhecimentos não deram conta, felizmente, de tirar do homem pantaneiro seus trejeitos, o que lhe era impregnado, ele precisava daquilo, o bicho para ele era mesmo o ?animar?, a pessoa inconsequente era o ?sujeito malafincado?, ele nos mandava ?embarcar? e ?apear? do carro, sempre, o cinto de segurança era para ele um tormento, se via ?maneado? com essa ?porra?, não respeitava o horário de verão com o argumento de que filho da puta nenhum iria mandar na barriga dele, na hora da sua fome, ele comia e não havia governo que o fizesse alterar seus horários. Essa autenticidade e eterna assimilação da siamesa junção homem pantaneiro/natureza/hábitos não desgrudaram nunca desses homens e isso é genial.
Minha amiga, ao final da conversa, me chamou para agradecer e despedir-se, havia no semblante dela um ar de alegria e satisfação, seus olhos brilhavam, ela queria rir, se conteve, ele nada comentou sobre a entrevista, apenas disse q era ela uma muiézinha muito simpática, faceira, fina e educada.
Dias depois ela me pediu para batermos um papo, ela queria me contar sobre a entrevista com o meu pai, então ela me falou que estava muito encantada com ele, com o olhar dele para a vida, disse-me que a maior surpresa foi, dentre tantas coisas, uma resposta dele quando ela o perguntou como ele, homem pantaneiro, via o turismo dentro do Pantanal, nas fazendas pantaneiras, interferindo no dia a dia e ele disse à ela que via com muita naturalidade, que via quase tudo na vida com naturalidade, que o mundo tem seu desenvolvimento, avanços e, após a humanidade ter experimentado as atrocidades espetacularizadas pela Inquisição, na Idade Média, ter experimentado o Nazismo e o Fascismo, ademais, tudo era tranquilo, possível, desde que fosse implementado com responsabilidade e atitudes preservacionistas, era válido, salutar.
Esse homem, hoje, teria 88 anos, no que pese suas limitações, equívocos e ignorâncias, ele daria um show numa moçada, atualmente, tão cheia de preconceitos, ódio e atitudes antidemocráticas!!
Raquel Anderson