Era o final dos anos 60, o apogeu de uma época revolucionária de costumes, liberdades, ousadias, de contestações e de ingênuas rebeldias. O Movimento da Contra Cultura, através do cenário underground, designava novos ambientes culturais, novas tomadas de consciências comportamentais, novas referências musicais, literárias, mudanças nas artes plásticas, na moda, dentre tantas outras coisas, resultando num dos grandiosos movimentos de massa, o movimento hippie.
Na deliciosa Aquidauana do final dos anos 60 e início dos anos 70, apenas uma ?patotinha? mais atirada absorvia, de pronto, as revoluções que ali chegavam através das músicas, das roupas trazidos pelos estudantes mais moderninhos que adotavam posturas mais irreverentes, a maioria desses, estudavam fora e voltavam ?causando? na cidade.
Os jovens rapazes aquidauanenses desejavam impressionar as mocinhas normalistas na saída da Escola Normal, mas, eram eles, obnubilados, que ficavam embasbacados com todo o charme, a graça, o jeitinho meigo e sensual das normalistas com suas fitas no cabelo, seus rabos de cavalo, suas trancinhas, suas franjas, seus lindos seios naturais, suas cinturinhas marcadas e as sainhas de pregas a desfilarem pelas calçadas, abraçadas aos livros, ou nas ruas de paralelepípedos caminhando com molejos que deixavam os meninos encantados... e sonhadores...
Tudo pronto para o Baile de 15 de Agosto, fazia um frio atípico na cidade.
Todas as mesas de pista e as adjacentes já estavam vendidas para o Baile.
O conjunto musical realizava inúmeros ensaios e estava afinadíssimo, as pessoas esperavam com a ?elegância fina de uma taça? pela apresentação do Conjunto, sonhavam com as canções, suspiravam ávidas pelo desejo de dançar de rosto colado, era um frenesi total.
Nessa época o Maestro Wilson Cameschi coordenava o Conjunto The Flash, posteriormente vieram ?Os Fabulosos The Corsairs? que animavam os inesquecíveis bailes.
As poucas cabeleireiras existentes na cidade com as agendas cheias, as moças se preparavam semanas a fio, prendiam bobes no cabelo, faziam toucas, enfrentavam os gigantescos secadores de cabelo de coluna que eram o maior sucesso, o hit do momento era o corte pigmaleão, além de penteados volumosos, finalizados com laquês, para deixar o cabelo ?em ordem?, muitas moças preparavam-se em casa e faziam verdadeiros alvoroços com as primas,com as amigas, se enfeitavam, maquiavam, com todo requinte, capricho e glamour.
Tudo pronto, todo mundo feliz, muitas expectativas, sonhos, suspiros e toda sensualidade.....
Eis que o irmão mais novo chega em casa após as 22:00 horas, ?meio alto?, toma um rápido banho quente, prepara o terno e, em meio aos pertences deixados espalhados pelas irmãs, as moças da casa e as convidadas, que já haviam saído para o baile, ele encontra, no quarto, entre batons, perfumes, bobes, grampos, lenços, pó compacto, bases, sombras, brincos de pressão, luvas, lenços e roupas, um par de meias finas 7/8 (meias de cinta-liga) meias finas compridas que iam dos pés até às coxas e eram afixadas através de cinto-de-ligas, contudo, o rapaz, tremendo de frio, resolveu experimentar para se manter aquecido durante todo o baile, ele as calçou e pensou que, apenas as meias, na altura de suas coxas, estariam afixadas (sem o uso da cinta-liga), vestiu-se com o terno completo, entrou no carro e foi faceiro para o baile do Clube Feminino, chegando lá, após uns goles de vinho, tirou a pretendente preferida para dançar e, no maior romantismo, do ?dois pra lá, dois pra cá? sentiu a meia descer pelas pernas, mas a empolgação, o prazer, o aconchego da bela moça cheirosa, o rostinho colado e a emoção embalada pelo ritmo e compasso da canção foram mais fortes que a sensação do prenúncio de uma ?tragédia? e ele continuou encarando a terrível sensação totalmente dominado pelo êxtase daquele momento, eis que, de repente, ?não mais que de repente?, a meia inteira desce, ?escorre? pelo piso da pista de dança, como se fosse um rabo fino e o casal que dançava ao lado pisam na meia do moço apaixonado, ele trava no meio do salão, ficando estático, a meia prende-se ao salto do sapato da moça do referido casal que dançava ao lado, foi uma grande confusão, no lusco fusco da pista de dança ninguém entendia o ocorrido, a moça com o salto preso à meia, desliza freneticamente, cai, a confusão estava formada, tiraram o sapato dela para que fosse desprendido da meia, o irmão intruso, surrupiador de meias femininas corre para o banheiro e lá sofre a maior gozação dos amigos, tenta explicar sua intenção de aquecer-se, mas não é ouvido, as gargalhadas ofuscam seus relatos e ele ?entra no espírito? das risadas e brincadeiras, retorna ao salão e é aquecido nos braços e aos beijos quentes de sua amada que o aguardava enternurada!
Não havia bulling, todos se divertiam e encantavam a cidade, eram felizes e sabiam!!!
*Não mexam nos pertences das meninas!!!
*Agradeço ao amigo Luis Antonio Serpa pela colaboração relativa aos Conjuntos musicais!
Raquel Anderson