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Raquel Anderson

Maio...

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O tempo que tudo registra, perpetua importâncias históricas, marca e demarca acontecimentos, estabelece limites, amplia horizontes, retrai, cadencia a humanidade a viver ritmada em horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos....
 
Somos presos às convenções temporais para ?construirmos? nossas vidas, seja com sonhos ou com ambições, quase sempre vinculados aos clichês, conduzidos nas fileiras das sociedades vigentes...
 
Na pequena cidade, era a segunda metade do século XX, uma família humilde, ?atípica?, composta apenas pela genitora e seus dois filhos, moravam num casebre de madeira, sem nenhuma condição de subsistência, sem dignidade, sem luz elétrica, sem água encanada, sem banheiro, sem a mínima estrutura, pois, anteriormente, nesse local, havia uma granja de frangos ou abegoaria, onde aves domésticas eram abatidas em condições rudimentares, vestígios, vísceras, restos de penas, ossos, fezes e detritos eram, permanentemente, alocados naquele lugar, não haviam políticas de saneamentos, vigilância sanitária, nada.
 
Nessa pequena casinha de madeira, poucos metros do centro da cidade, após a desativação da granja, albergou-se essa humilde família.
 
Ao fundo, passava um córrego, no passado, límpido, potável, saudável...todos os detritos da granja e dejetos humanos foram nele jogados.
 
A jovem senhora, índia, que habitava a casinha de madeira com seus filhos, saía, todos os dias, cedinho, para trabalhar como empregada doméstica numa família de classe média que morava nos arredores, deixando suas crianças sozinhas no casebre e, eventualmente, a avó das crianças vinha da aldeia, onde morava, para fazer companhia aos netos, a bondosa patroa da índia permitia que ela ?desse um pulinho? até sua casa, várias vezes ao dia, para dar uma olhada nas crianças, de vez em quando levava as crianças com ela, ao trabalho.
 
Numa tarde outonal, com o sol branco, ardido, o vento largo, balançando as folhas, a moça índia trabalhava lavando roupas, no tanque, passando roupas, lavando louças, varrendo, passando pano, passando cera, passando escovão, lavando calçadas, lavando banheiros, descascando mandioca, desfiando frango, fazendo suspiros, fritando bolinhos de chuva e encarando todo tipo de trabalho, tranquilamente, com a mansidão e a delicadeza próprios das doces mulheres indígenas.
 
Surgiu, naquela tarde, no portão da casa da patroa, uma pessoa, agitada, gritando, desesperadamente, pela jovem índia, dizendo que uma de suas crianças estava passando mal, a índia saiu correndo, a patroa foi atrás, ao entrarem na casinha de madeira, a criança, com quatro aninhos de idade, agonizante, expelia vermes por todos os seus orifícios: narinas, ouvidos, boca e anus; a índia, no maior desespero materno, colocou a criança em seus braços, aconchegando-a ao seu peito, tentou, pela última vez na vida, amamentá-la e, aos prantos, suplicando vida ao seu filho, como se o seu próprio leite pudesse salvá-lo, chorou baixinho vendo o filho morrer em seus braços.
 
A patroa levou a índia com o filho morto ao necrotério da pequena cidade, lá providenciaram um caixãozinho e fizeram o enterro do pequeno indiozinho, no outro dia, cedo, como de costume, a jovem índia compareceu à casa da patroa para trabalhar e seguir a vida...
 
Vida que, estranhamente, segue de mães sem seus filhos, vida que segue sem consumismos, vida que segue sem necessidades compulsivas de comprar, vida sem precisar ter, vida sem acumular, vida sem precisar presentear, vida que segue com a capacidade monumental de doação, vida que segue com o coração, vida de mãe, vida de mãe biológica, vida de mãe que adota, vida de filha que compreende a maternidade pelo amor de sua mãe, vida de pãe (mãe que é pai e mãe), vida de mãe transexual, vida de mãe homossexual, vida de gente que cria gente, vida de gente que ama, vida de gente que cuida de outras vidas, vida de quem aprende, na maior lição da vida, com a mais humilde mãe, índia, o que é ser mãe e carrega, pra sempre, na mente, na alma, através daquela dor o que é o amor de mãe!!!
 
Feliz Dia das Mães!!!!


Raquel Anderson

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