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Raquel Anderson

Dia do Fusca

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Acessos, possibilidades, condições, oportunidades.... subsidiam sonhos, povoam desejos e nos remetem aos quereres onde projetamos uma viagem, uma utilização prática diária, um passeio, um encontro, uma necessidade elementar nas buscas cotidianas para a subsistência.
 
O sonho de consumo, vinculado a uma paixão, impulsiona o movimento impetuoso da alma num frenesi arrebatador para quem admira, sente alegria, namora, gosta muito, tem predileção....
 
Preconizam argumentos e clichês de que a paixão é efêmera, fugaz, contudo a poesia e olhar poético, mansos, ternos, contrariam tais esteriótipos. A paixão é o auge do bem querer, da doçura, da delicadeza e, há dentro do imaginário e do sentimento brasileiro, a tendenciosa disposição para o cuidado, para extravasarmos nossas alegrias, nossas paparicações com o que gostamos.
 
Seja como passageiros, seja como motoristas, seja como proprietários, a maioria de nós, fomos levados um dia por ele que atravessa décadas conosco e, como tudo que é simples e singelo, é encantador, apaixonante.
 
Lembranças adoráveis da infância, onde nos acomodávamos, rapidamente, no porta bagagens,,anexado ao banco traseiro,e seguíamos, horas a fio, espremidos e faceiros, sem nos preocuparmos com o tempo, sem nos submetermos às exigências de segurança ou imposições tecnológicas atuais.
 
Lembranças do leiteiro que nos trazia o leite em enormes galões, colocados de maneira improvisada  ao lado do motorista ou sobre o banco traseiro, corríamos com a leiteira e observávamos o ritual diário daquele ofício, a agilidade de nos entregar a leiteira e reordenar o galão dentro daquele recinto automobilístico para mais uma entrega.
 
Lembranças do namoro naquele aconchegante espaço, onde sincronizávamos, braços pernas e, ali, totalmente protegidos pelos vidros embaçados, cabia o mundo no instante do amor.
 
Lembranças do delicioso ronco do seu motor que anunciava, de longe, que ele estava próximo, trazia auxílio, trazia a carona, trazia o amigo, trazia o recém nascido, trazia a vida.
 
Lembranças das andanças, das paqueras, das idas ao bailes, das tardes de passeio, dos domingos a carregar um monte de gente, meia dúzia dentro dele cabia tranquilamente, íamos no colo, no assoalho, onde desse, com desprendimento nos ajeitávamos parcimoniosamente.
 
Lembranças de um tempo onde a simplicidade imperava e o padrão básico, standard, nos bastava, nos definia e nos alegrava, um tempo em que priorizávamos o poder da utilização, a importância da locomoção, a valorização do auxílio para os nossos deslocamentos.
 
Sua eterna forma e concepção estética nos encantou e nos encanta, perpetuando nossa paixão.
 
Carregou o time de futebol, carregou a noiva ansiosa, carregou o trabalhador, carregou o doutor, carregou o pão, o jornal, as compras do armazém, não deixou de fora ninguém e atravessa as nossas vidas, sabe tudo de nossas buscas, assim é o nosso eterno e amado FUSCA!!!
 
 
Raquel Anderson

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