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Raquel Anderson

Chipeira!

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- Quer comprar chipa moça?
- Obrigada Sra, boas vendas!!
Seguiu a chipeira, a passos lentos, vestida de branco, com igual lenço na cabeça.
No braço direito ela trazia uma cesta retangular, artesanal, de palha, com forte alça de bambu, coberta com um pano de prato branquíssimo.
Na mão esquerda, dentro de um saquinho de plástico transparente, haviam 3 chipas apetitosas afim de que ela demonstrasse seu produto.
Circulava pela rodoviária com calma e gestos brandos, desceu algumas escadas e dirigiu-se à sua bicicleta, estacionada junto ao meio fio,onde havia, na garupa, amarrada, mais uma cesta repleta de chipas.
Acomodou-se no banco de concreto, na calçada, próxima à plataforma dos ônibus, com a cesta no colo para reorganizá-la, levantou apenas a metade do pano de prato e ajeitou os saquinhos, contendo as chipas.
Sentei-me ao seu lado e entabulei uma prosa:
- Sra, tudo bem?
- Tudo bem, moça!!
- Como é o seu nome, Sra?
- Meu nome é Percília!
Ela aparentava ter entre 60 a 65 anos.
- Dona Percília, a Sra faz chipas há muito tempo?
- Vivo disso moça, criei meus dois filhos fazendo chipa e vivo disso até hoje, sustento a casa.
- Sabe moça, antigamente eu tava de pé as quatro horas da madrugada, morava na chácara, levantava para assar as chipas, ia pra estrada com meus filhos e pegava carona até a cidade, quando era seis horas da manhã as meninas tomavam ônibus para irem estudar na escola rural, hoje elas são formadas e trabalham, uma delas é professora e eu sinto muito orgulho. Todas as conquistas foram com a chipa.
- E a senhora mantém o mesmo ritmo até hoje?
- Bom, hoje eu já saio de casa um pouquinho mais tarde, quando a barra do dia aparece, agora moro aqui na cidade, tenho a minha casinha, paguei vinte mil reais nela; daí moça, eu vou nos postos de saúde pegar o povo que foi fazer exame em jejum e saem doidos por um cafézinho e uma chipa quentinha, depois vou nas repartição pública e lá pelas nove venho aqui pra rodoviária, isso é todo dia da minha vida!
- Dona Percília, a Sra já se aposentou?
- Não filha, tenho 53 anos!!
Pausa......com 52 anos, a interlocutora da Dona Percília tem aparência fiel a sua idade. Espanto total com a aparência judiada daquela mulher que enfrentou as lidas pesadas da vida rural, trabalhou de sol a sol e enfrenta a vida com um sorriso tímido. Chamar de filha quem poderia ser, no máximo, sua irmã, revelou sua postura de uma mulher que se vê judiada pela vida, que se vê idosa.
- Quantas chipas a Sra vende em média por dia, Dona Percília?
- Quando o movimento tá bom vendo cem chipas, um pouquinho mais.
- A Senhora compra os ingredientes em atacadista?
- Encomendo o polvilho de Ivinhema, o saco de 100 quilos, pago a transportadora e ainda sai mais barato do que comprar aqui, o resto, queijo, ovo e leite vem de uma fazenda que compro a muitos anos e eles fazem um bom preço pra mim.
- E a Sra assa as chipas no fogão à gaz?
- Não filha, asso no fogão a lenha que mandei fazer com dois forno bem grande, na minha casinha.
- Acordo de madrugadinha pra assar as chipas, fazer o café, todo dia.
- E a Sra moça, faz o quê??
- Eu sou Escritora Dona Percília!
- Nooossa, escritora, assim de escrever??
- Isso mesmo Dona Percília, escritora de escrever
- Hum.... e a senhora escreve o quê, por exemplo?
- Escrevo artigos, textos, crônicas, poesias, poemas, livro.
- Noooossa, nunca que eu vi antes uma pessoa com essa profissão.
- É uma profissão igual as outras Dona Percília, que requer dedicação, empenho, disciplina e muito amor.
- Mas esse negócio de escrever deve ser muito difícil, né?! De onde você tira as ideia??
- Eu tiro as ideias das observações que eu faço do mundo, das experiências que eu vivo e já vivi, das delicadezas da vida, dos sentimentos bons, das leituras, das belezas da vida que estão, sempre, nas coisas simples, nos gestos belos das pessoas, tiro ideias das músicas que eu ouço, do dia a dia mesmo, Dona Percília, das maravilhas da natureza, do homem, das saudades que me invadem, tiro as ideias da gratidão pela vida, dos belos encontros, tiro as ideias da atenção que eu recebo das pessoas como agora, nesse momento, nessa deliciosa prosa com uma pessoa encantadora como é a Sra.
- Eu?? Bem capaz, moça?!
- Eu lá sou ideia pra alguma coisa, sou uma chipeira, só!
- Dona Percília, deixe-me lhe dizer uma coisa: a Sra é uma grande ideia sim, uma pessoa muito importante, corajosa, trabalhadora, comunicativa, criativa, a Sra é uma profissional que tem muita importância, vende um produto que tem um componente cultural forte, que tem origem num outro país, que é diferente, delicioso. A Sra é uma grande mulher, tem uma linda história, disposição, sua atividade profissional é artesanal, sua matéria prima, quase toda, vem do campo, a Sra tira seu sustento como chipeira, uma profissão bonita, digna e, se a Sra me permitir, ou não, hahaha, vou escrever sobre sua atividade e sobre essa linda e intensa mulher que você é, tá bom?!
- Quá!!! Cada uma!!! Tá bom, moça, quem é que vai dar "lado" pra mim? Mas. se você acha isso tudo mesmo que você me falou, puuuuxa vida!!!! Nunca parei pra pensar nessas coisa.....mas você é moça educada, sabe falar bunito e se você escrever que nem você fala, há de sê bunito suas letra, né?!
Emoção!! Olhos de cacimba, respirei fundo!!
- Pois a Sra é tudo o que eu disse e muito mais, seu valor é maior do que eu consigo escrever, saiba!!
- Olha moça, ninguém nunca me falou esse monte de coisa bunita assim não, mas, pensando bem, acho que você que é estudada deve de tá certa, só minhas filha me dão valor.
- Dona Percília, a Sra gosta do seu trabalho??
- Ara!!! Eu adoro, sabe?! Num sei fazer outra coisa, adoro quando chega aquele sacão de polvilho, quando o caminhãozinho da transportadora pára na frente da minha casa eu me sinto importante nesse dia, meus vizinho ficam admirado, daí eu junto tudo, o ovo caipira, os queijo curado, lindo, um montão de coisa, leite, isso é a minha vida, a minha lida!!!
- Tá vendo Dona Percília?! O quanto é importante e realizador fazer o que a gente gosta e sabe fazer, né?!
- Pois é..... e você sabe escrever, achei isso sim, diferente, engraçado!!!
- É, de fato, muitas vezes é muito engraçado mesmo!!!
- Dona Percília, esse é o meu cartão, aqui tem meus contatos todos, fique à vontade para me procurar quando a Sra quiser, meu ônibus está chegando, foi um enorme prazer conversar com a Sra. Por favor, levante-se e me dê um abraço, tá?!
- A Sra quer me abraçar?? Por que??
- Porque a Sra é uma pessoa admirável e merece carinho, respeito!
Foi um abraço tão afetuoso, com o delicioso cheiro de chipa, eu o guardarei para sempre. Olho para a chipa que restou, enternurada!!

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