Há um rio que nos demarca, é preciso fazer a travessia da ponte....
Ao transpô-la, há a igreja,há a praça, há a casa do saber e a câmara municipal, do outro lado da transposição do rio, há o comércio, o campo de futebol, as meninas da fazendinha e o pirizal....
Alagados ou sequinhos, seguimos, com aparente parcimônia, apenas aparente, somos efervescentes, no fundo, é assim a alma da gente, de certo que, por isso, vez em quando vem a enchente, pra abrandar as ideias e o fogo que arde em nossas mentes...
Aqui a gente cuida do outro, para o bem ou para o mal, mas a gente cuida,aqui somos assim, e daí?? "Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida". Aqui a gente cuida da vida do vizinho, da sua casa, das suas roupas, dos seus pertences, das suas viagens, dos seus amores, dos seus amantes,do seu gato, do seu cãozinho e, se preciso for, sentimos suas dores, nos entristecemos com seus dissabores...
Aqui a gente ainda empresta o carro, o açucar, o ovo, a senha do wifi, aqui a gente tem intimidades.... aqui a gente pede favor, aqui a gente visita as pessoas, aqui a gente ri a toa, aqui a gente faz roda de tereré, a gente senta na frente na calçada para ver a vida passar... aqui a gente mata mosquito, aqui a gente compra verdura na horta, aqui a gente come espetinho na rua, de manhã, bem cedinho, aqui a gente ainda se assusta com o carro da polícia, aqui a gente dorme depois do almoço, aqui a gente se incompreende, se incomoda com o outro, a gente critica, a gente faz elogios,mas... aqui há tantas delicadezas, tanta generosidade, aqui há um povo diferente....
Muitos de nós, fomos ou somos sacudidos nos paralelepípedos, sobre as patas de um cavalo, nas rodas de bicicletas ou na junção das rodas com animais, em cima de charretes e carroças, em cima de motocicletas, aqui, um dia, já nos sentimos todos iguais....Daqui saímos para os pantanais.
Aqui aprendemos muito com as gentes pantaneiras, errantes, fascinantes!
Aqui identificamos pássaros, acordamos com suas sinfonias, convivemos com as araras, aqui há beleza rara!
Aqui há um povo que se orgulha dessa terra, apesar de suas mazelas...
Aqui estufamos o peito e nos envaidecemos pelos conterrâneos, pela moça bonita, torcemos, emocionados, pela nossa Talita!
"Na minha cidade tem poetas, poetas" tem artistas maravilhosos que a completa!
Aqui tem um povo valoroso que come poeira... aqui tem um povo bem tratado, aqui há quem seja desprezado, aqui há conformismos, aqui, na nossa cidade, há precariedades, aqui a gente se ajeita, aqui a gente se humaniza, se solidariza, aqui, muitas vezes, regimes estadistas estabelecem relações meramente utilitárias com o povo, mas, a gente segue, não se cansa e, a cada pleito, repete tudo de novo, aqui somos fortes, superamos o estorvo.
Aqui tem vaca na rua, aqui tem picolezeiro, aqui tem casas espaçosas, avarandadas, tem mate de madrugada.
Aqui tem peão boiadeiro, homem valente, hábil, amante pantaneiro.
Aqui tem mulheres anônimas, batalhadoras, mães de família, mulher que se vira, que a todos ensina manejar a própria vida, que é fundamental, na lida, na cidade, na vida, nas habilidades intelectuais, que banham-se em águas doces, que extraem do quintal a flor que as enfeita, mulher que é puro amor, mulher descomunal, cria do pantanal.
Aqui tem pescaria,tem caçada, tem putaria, aqui tem seriedades, autonomias, aqui tem freio, tem "reio" e arreio.
Aqui tem trilhos abandonados, aqui tem trilheiros mal traçados, aqui tem mata e arenito, aqui tem cachoeira, aqui, quando crianças, jogamos turito.
Aqui há saudosismos da infância largada, do banho no córgo, do lambari frito, das jovialidades permissivas, dos carnavais, dos bailes no Feminino, de um tempo que cravou marcas atemporais, de um tempo que tatuou coragens a mais para seguirmos viagens....e, muitos de nós, compramos passagens sem volta, mas isso não importa, a cidade continua pequenina, com cara de cozinha da vó, quem aqui nasceu, ou por aqui passou, é capaz de se emocionar ao ouvir canção pantaneira de uma nota só.
Aqui é um chão centenário, com simplicidades, incomparáveis sabores culinários, um povo extraordinário.
Aqui há um rio de chocolate, há uma gente doce, há gente que cuida, que espia, espreita e que te ama: Aquidauana!!!