Ali, ao léu, deitados ou sentados no enorme colchão que guarda boa aparência!
É, no mínimo instigante... passam horas ali, a repousar, prosear, a dividirem o sono, a preguiça, o medo, a fome, a doença e, sobretudo, a falta de perspectivas!
Contrastando com a linda arquitetura neogótica da catedral, alheios aos homens de terno e as executivas ou trabalhadores humildes que caminham apressadamente pela Praça, eles se ajeitam, se abrigam e se aquecem em cobertores sujos, tal qual eles se encontram, sujos, mulambentos, famintos e, para muitos bem nascidos, estorvam a paisagem, atrapalham a boa visão da praça, da catedral, do prisma hexagonal do marco zero, das palmeiras imperiais e o acesso ao metrô.
Ouve-se resmungos e comentários preconceituosos dos transeuntes minuto a minuto.
Por que será que eles levaram um enorme colchão para a Praça?
Nada pretendem, certamente, a não ser exercerem o que ainda lhes é, limitadamente, permitido fazer, repousarem, relaxarem....
Julgamentos e esteriótipos já não os atingem, temem apenas represálias da polícia paulistana que não "os alisa".
Desnecessariamente um policial agrediu a bofetadas um mendigo idoso, negro, tão
somente porque ele se aproximou do policial e o abordou....com a bofetada ele caiu, bateu a cabeça na calçada acimentada, rústica e machucou-se! Essa impotente relatora, indignada, esvaiu-se em lágrimas e questionou o policial sobre sua atitude, ele abruptamente ordenou-me:
-"Vaza daqui, sua idiota".
Talvez um dos maiores desafios humanos seja o da coragem!! Acovardei-me, senti medo, ameaça, afinal, vivemos uma conjuntura política e social que verdadeiramente apavora!
Envergonho-me pela minha covardia, obviamente, contudo, minhas limitações físicas me impedem de realizar alguns atos, como correr, por exemplo.
Fui até a catedral e procurei a equipe de Serviço Social que ali faz plantão, estavam em reunião!
Fiquei com a ideia de me pronunciar a respeito, titubeei, escrevi uma frase, um parágrafo, apaguei, desisti, temi apresentar um texto clichê, mas, revi minha inquietude e aqui estou....ainda que eu seja uma provinciana, jacu, não me importo e me expresso!
Fiquei com vontade de fotografar aqueles indigentes no colchão, pensei na invasão de suas privacidades, no direito de imagem, fiz de conta que os fotografava para ver qual seria a reação deles, nesse momento,acometeu-me um lapso de coragem, um deles me enfrentou:
-"Que é isso tia? quer tirar fotos da nossa vida de desgraça?"
Eu, de longe:
-Eu só fingi que tirei, apenas para chamar a atenção de vocês, só o farei se vocês
permitirem, mas aqui, de longe, respeito a todos!
-"De longe mesmo tia, depois vá embora!"
O colchão exerce apelo de identidade importante, comerciais modernos os remetem ao aconchego do lar, ao amor e ao sono repousante, aos belos sonhos, onde, via de regra, nos deitamos cheirosos, realizados, bem nutridos, há colchões,atualmente, que passam de dez mil reais!
Colocar um enorme colchão no marco imponente e importante de uma metrópole é uma atitude ousada, de enfrentamento!
Num país onde a vida é banalizada e ateia-se fogo nas pessoas, se impor com um colchão foi uma grande sacada!
A dor é irmã da irreverência! A necessidade é ilógica!