Raquel Anderson
Nos espaços agradáveis das casas amplas, com as janelas abertas para todos, para tudo, com vida aberta para as amplitudes do afeto, dos acolhimentos, com a alma receptiva e as flores nos jardins, com murinhos baixos e portões de trincos ou tramelas, plantadas nas latas, fartas samambaias catadas no mato, espadas de são Jorge, alfinete de noiva, gerânios, brincos de princesa, avencas, capim cidreira, comigo ninguém pode, maria- sem-vergonha, com as relações pessoais inclusivas, com a solidariedade cravada nos corações, isolamentos raros, desprendimentos largos, diferenças sutis, trilhávamos, trilhamos, diariamente, os caminhos das delicadezas...
As intransigências não fazem morada nas simplicidades saborosas e, tal qual faziam as poucas plissadeiras, que marcavam finos e leves tecidos com dobras indissolúveis, a vida era, é, marcada pelas habilidades femininas,a quem éramos e somos, docemente, dependentes das levezas, delas todas, que nos potencializou e nos potencializa com a criatividade e com o alimento de vida que as mulheres de Aquidauana enfrentaram e enfrentam, ao longo dos 125 de existência, perpetuando o ordenamento infinito do carinho, secular em nós.
Suportamos tudo com uma potência pantaneira, calor, ardência...
Existimos criativas, contagiamos os visitantes, os moradores, os errantes, bordamos, pintamos , cavalgamos, costuramos e cozinhamos a nossa existência com ousadias,com sensualidades, com obediências ou com condutas que chocam, construímos e desconstruímos as convenções.
O feminino aquidauanense embrenha-se no mato da dor, é capaz de sustentar e suportar o conservadorismo imperativo, joga-se na exterioridade da cidade e carrega a capacidade de ser resistente, resiliente.
O feminino aquidauanense canta, dança, festeja, agrega,isola, grita e se cala,vai pra balada, se pinta, se anima e esmorece, se cansa e ressurge, esfola-se nos paralelepípedos, fingem que não ouvem o seu grito. Teimosas, reaparecem, enfrentam, anonimamente ou deliberadamente e impulsionam a cidade com a força exclusiva da feminilidade.
Aprendemos, no amor e na dor, ganhar e perder, ressurgimos das enchentes que invadem nossos desejos proibidos, do lamaçal existencial que nos atolaram, usamos a força feminina e nos inventamos, nos reinventamos e nos fazemos mulheres e meninas de Aquidauana, temos um jeito, somos muitas, muitas vezes, consumidoras de ideais que desabam em nós e, quando cuidamos de Aquidauana, estamos cuidando de nós, dos nossos conflitos, do lugar que vivemos.
É o sentido de vida que faz com que a gente preserve, quem deprecia a vida e o seu lugar precisa limpar o seu espelho ou quebrá-lo para que, com os pedaços estilhaçados, possam lutar pelo empoderamento, pelas possibilidades e pluralidades presentes em nós, mulheres de Aquidauana, costureiras, cozinheiras, lavadeiras, boleiras, doceiras, manicures, cabeleireiras, comerciárias, sacoleiras, prostitutas, alunas, professoras, varredeiras de ruas, médicas, dentistas, enfermeiras, bordadeiras, psicólogas, assistentes sociais, secretárias, balconistas, escritoras, dançarinas, cafetinas, empregadas domésticas, chipeiras, faxineiras, jornalistas, advogadas, bancarias, pipoqueiras, sonhadoras... responsáveis pelo andamento da cidade, com ou sem profissão, tias, primas, irmãs, mães e avós, com o nosso jeito e autenticidade, somos, todas nós, o melhor da cidade!
“Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.
Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"
INÉDITO
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ZONA RURAL
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