Raquel Anderson
Publicado em 10/08/2017 às 11:17
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
É o lugar da vontade, onde há cor na formosura, há desenvolturas, é o lugar onde as pessoas belas e simples, relatam, delicadamente, que limpam as entranhas dos paralelepípedos com o mato que leva a terra e a sujeira.
Esse é o lugar onde varre-se a rua com o clarão do luar, ou bem cedinho, para aproveitar a fresca.
É o lugar onde há um juntamento de pessoas que se doam tanto, ao ponto de uniram-se para transformar as convenções e decidirem, por elas mesmas, com apoio institucional, que cuidarão da limpeza, de varrer a cidade de um modo diferente, porque esse é o lugar dessa gente que expressa, com orgulho, que é acostumada a limpar com vassoura feita do mato.
Esse é o lugar onde as pessoas se ajudam e, juntas, vão catar guanxumas, confeccionam as vassouras para varrer as ruas da cidade, dessa forma, embelezam a vida.
Esse é o lugar onde essas pessoas inundam o mundo com a enormidade dessa delicadeza.
Esse é o lugar onde a leveza habita, é o lugar do ineditismo, da poesia, esse é o lugar onde um italiano veio varrer a rua porque, encantado com uma aquidauanense, teve que ficar, não pode mais amanhecer sem ela.
Esse é o lugar onde os nossos olhos podem ver toda essa lindeza, é o lugar onde a moça traz, da sua casa, a vara de taboca, usada para "derrubar frutas do pé" e, com ela, derruba broto seco do carandá para fazer mais um tipo de vassoura e, assim, varrer a cidade com vassoura de carandá.
Esse é o lugar dessa gente maravilhosa, referência de união, cooperação, amizade, solidariedade e muita dedicação.
Esse é o lugar onde mulheres, mães de família, provedoras da casa, orgulham-se, enormemente, de sustentarem-se por meio do ofício com a vassoura de guanxuma e de carandá.
Esse é o lugar onde homens sustentam-se, a si próprios e às suas famílias, com a utilização laboral da vassoura de guanxuma e de carandá, praticam, ainda, diariamente, gestos elegantes e afabilidades com as suas companheiras de trabalho, gestos raros.
Esse é o lugar onde há uma equipe de pessoas que extraem da própria terra, a matéria prima e confeccionam a sua “ferramenta” de trabalho, pelo carinhoso desejo de favorecer a lida, ajudar os companheiros de profissão a suavizar a atividade.
Esse é o lugar onde essa iniciativa nasceu para facilitar a atuação profissional feminina, é o lugar onde ainda há esse tipo de gentilezas.
Esse é o lugar onde há colaboradores, cidadãos comuns, voluntários, que fornecem câmaras de pneus de carros e de bicicletas para amarrar as vassouras de guanxuma e de carandá.
Esse é o lugar em que a gestão pública valida essa prática que é a identidade cultural de uma cidade pantaneira.
Esse é o lugar das simplicidades, é o lugar em que se constata, literalmente, com registros poéticos, *que varrer requer habilidades inimagináveis, varrer é harmonizar-se com o rasteiro, fincar os zóio no chão ou voar....com todas as liberdades e possibilidades da imaginação, voo mais fácil que do avião.
Esse é o lugar das relações cordiais, esse é o lugar de enaltecer as autenticidades, esse é o lugar de render homenagens, é o nosso lugar, é o lugar das nossas peculiaridades, assim é a nossa cidade, onde o sol aquece a vida.
Esse é o lugar onde o calor intensifica os sentimentos, é a casa da gente, é a cara da gente, a nossa Aquidauana.
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