A chuva de hoje é lágrima no chão!
É do lado de dentro que a gente sangra, do lado dentro, a poeira empoa o diafragma e os músculos intercostais, contraem-se, para encher os pulmões.
Poeira embaça a visão, disfarçando os zóio areiado de emoção.
Comendo poeira, escrevendo no chão, deixamos rastros, história boa, ilustração.. carimbamos os caminhos, cravamos a ilusão.
Rastros raros marcados com barrigas de calangos, unhas de tatu, gosma de cobra, pézinho de passarinho, cauda de tamanduá, trilheiro de formigas, bostinhas de capivara, focinho de caititu, espinhos de ouriço-cacheiro, pele craqueada do jacaré, penas de araras, fiapos de ninhos, penugens de periquitinhos, ranhuras de pneus, cascos de cavalos, veio d"água, bitolas entremeadas de capim, bosta de vaca, jatobás quebrados, araçás caídos, águas pombas, pitombas, cupinzeiro, guaviras amassadas, tudo havia naquela estrada...
Era de terra, a mais bela saída e a mais deliciosa chegada... era seca, molhada, orvalhada, enlameada, empoeiradas eram as entranhas do lado de dentro dos distritos da minha cidade, era de terra, era charmosíssima, com muita qualidade!
O homem, arrumado em quadradinhos, seguiu o padrão mesquinho, preferiu o asfalto, o piche sem poesia, enterrando a nostalgia, padronizando a travessia...
A modernidade engessou a paisagem, não há mais cheiro de chuva na viagem...
Fez-se o padrão na contra mão do charme, o que o "modelo" do turismo convencional requer....
Piraputanga e Camisão asfaltados perdem os seus legados, sua poesia, seu cheiro bom de chão, sua adorável poeira, característica de adjacência pantaneira....
Que as nossas lembranças nunca percam a poesia, que os ziguezagues que fizemos naquelas estradinhas, onde advínhávamos as pegadas dos bichos, estejam, para sempre, em nossas memórias afetivas, feito nichos, para guardarmos as delicadezas, às margens da estrada, incrustados nas árvores, como fazem as iguanas...somos o povo saudosista de Aquidauana!