Diário de um tempo de Pandemia IV
A vida está emitindo boletos e enviando-os aos quatro cantos redondos do mundo, diga-se de passagem...
A humanidade recebe os boletos, considera-os spam e os deixam ali, como lixos eletrônicos.
Mais do que uma fatalidade histórica, um sobressalto do universo, há uma sensação de um acerto de contas, há um acerto de contas...
Os juros, impagáveis, são as nossas vidas, as taxas embutidas são a escassez de respiradores, os corredores hospitalares lotados, as UTIs, o sofrimento de todos, indistintamente.
A inocência e a bondade, o mais belo e mais sublime par da vida, com a humildade que lhes são peculiares, persistem em caminhar de mãos dadas, independentemente das recomendações de afastamento, de distanciamento de contato...
A inocência e a bondade, juntas, escancaram as janelas do amor, produzem máscaras de tecidos, capotes, doam alimentos, se compadecem, inocente e bondosamente.
A inocência e a bondade, velhinhas, nunca desistiram da humanidade, são um par inseparável, moram numa casa simples, no interior do mundo, costuram, cozinham, guardam coisinhas no baú da solidariedade e, é só precisar, abrem o baú para distribuir seus pertences e ajudar a todos.
A inocência e a bondade possuem o sexto sentido inerente à suas condições/classificações, femininas, pois sabem, precisamente, a quem os guardados de seu baús devem se destinar...
A inocência e a bondade com seus DNAs de tartarugas, seguirão, caminhando lentamente, anos a fio, ainda que por um fio dispostas a ajudar...
A inocência e a bondade, desconhecem os boletos, os juros explícitos ou embutidos, não estão nos cadastros negativos, seguirão, legitimamente bondosas e inocentes, perpetuar-se-ão assim sendo, pois, portadoras desses nomes que as traduzem tanto, como senhoras de bem, do bem...conhecem, mais do que possamos imaginar, quem é quem!
Raquel Anderson