24 de setembro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: A ARTE DE SÓ SER (E DE SER SÓ)

Giovani José da Silva
24 JUL 2020 - 22h08min

         Eu não escrevo para a coluna há quase dois meses e o motivo não foi a pandemia/ o pandemônio instalado entre nós! Ou foi? Eu ando meio (ou todo) macambúzio, quieto mesmo, buscando os caminhos da arte de só ser (e, por tabela, de ser só...). Quando me perguntam como estou, em geral, respondo que “está tudo índio” e com isso quero dizer que se não estou exatamente bem, tampouco sinto-me mal. Sei que sou um privilegiado por ter casa, comida e um “tiquinho” de equilíbrio. Aliás, o grande mal-estar que toma conta de muitos de nós nestes tempos pandêmicos parece ter chegado à porta de casa e pedido para morar uns dias aqui no meio do mundo. Estou só e sei que sozinho fiquei desde que meu pai se foi, em um dia chuvisquento e frio, e com ele se esvaíram as chances de ter uma infância de criança qualquer. Já não havia tempo para brincar, pois era necessário trabalhar, estudar, trabalhar e... estudar! Cresci e os homens que escolhi (ou que me escolheram) para pais “postiços” – Aliano, Arnaldo, Nazario – se foram, também, e fiquei órfão mais de uma vez. Não, caros leitores, o texto dessa semana não é um “muro das lamentações” ou um rosário de perdas (e danos). É que eu tenho me deparado todos os dias dessa pandemia com uma companheira de viagem de longa data: a solidão! Vejo meus colegas em inúmeras lives, em prestigiadas conferências virtuais, em bancas, falando dos mais variados assuntos e... fico com uma enorme preguiça de acompanhar tudo isso! Só tenho vontade, mesmo, é de ficar quieto, esquecido em algum canto da pequena casa onde moro, exercitando (se é que é possível) o ser... Não, aqui eu não sou o doutor com dois pós-doutorados, que está fazendo a terceira graduação ou, ainda, o super especialista neste ou naquele assunto, escritor de livros e artigos científicos. No exercício da arte de só ser, sou apenas o Giovani, que em algum momento foi o rapaz magricela que chegou à Aquidauana sem eira e nem beira, que comia apenas uma refeição completa por dia e que tinha sonhos de se tornar professor de História, em uma escola pública qualquer (isso porque fazer Teatro não era bom para alguém tão pobre)... Ah, a vida me trouxe muito mais do que eu poderia imaginar (trabalho na Televisão, títulos acadêmicos, prêmios, ...), mas eu continuei só! Desde pequeno fiz de livros e filmes meus melhores amigos, refúgios para escapar (ou tentar escapar) dos dissabores da vida e do desamor. Hoje vejo/ sinto que as pessoas que poderiam/ deveriam me proteger e me cuidar renunciaram a isso, sabe-se lá o porquê. No isolamento social em que me encontro percebo que me sinto “isolado” há tanto tempo que já perdi as contas. Como seria bom receber um telefonema/ uma mensagem/ um sinal de fumaça e do outro lado alguém perguntasse somente como estou e me mandasse apenas sentimentos benditos/ bem ditos. Não quero ser procurado apenas para responder à alguma demanda, emprestar dinheiro, fazer algum favor, indicar uma leitura, dar conselhos! Não quero ser o professor Giovani o tempo todo, a personagem que escolhi representar ao longo dos últimos trinta anos, tampouco o especialista na temática indígena ou o pequeno “gênio” da família que resolvia palavras cruzadas com facilidade... Nunca quis ser famoso, nem ter reconhecimento ou pertencer a algum “clubinho”, recebendo likes e acreditando que isso fosse afeto. Quero só ser, existir, sem expectativas de ser convidado para algum “convescote” ou para algum empreendimento que me trará notoriedade! Os holofotes procuro deixar para outros, especialmente para os que se esforçam em aparecer, para serem (a)notados, massageados em seus egos. Tenho tentado “adestrar” o meu nesses tempos pandemônicos e agradeço todos os dias quando vou para a cama e percebo que fui esquecido mais uma vez. A arte de só ser tem me ajudado a enfrentar o ser só, a redescobrir o prazer de ser “o (único) filho de dona Gregoria”, de ficar em silêncio a maior parte do tempo, de dar comida aos passarinhos que vêm à minha janela todos os dias alegrar o meu cotidiano (às vezes) cinzento. Eu não tenho muitas gentes com quem conversar (nunca tive) e, talvez por isso, me pego com frequência cada vez maior falando sozinho ou tentando um diálogo com lagartixas, aranhas e outros seres (físicos e espirituais) que povoam a minha “oca”. Saibam que escrever a coluna Histórias de Admirar também tem sido um exercício de só ser, caros leitores: como quase ninguém a lê, sinto-me à vontade para ser só o Giovani, aquele menino que só queria ser criança...

 

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