28 de outubro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: COLETIVO DE...

Giovani José da Silva
29 SET 2020 - 21h16min

         Sempre fui um tipo considerado antissocial, pois desde muito criança preferia livros e filmes a gentes, incluindo minhas irmãs, primas e primos (alguns muito violentos e chatos, diga-se de passagem). Não sei se aquilo era defesa ou fuga da realidade, mas o fato é que eu me sentia muito mais feliz sozinho, esquecido em um canto qualquer, enquanto minha mãe costurava loucamente a fim de garantir nossa parca subsistência. Enfim, chegou o momento de ir para a escola e a necessidade de participar de coletivos se impôs, embora eu sempre evitasse contatos maiores (seria eu uma espécie de “autista” social?). Os amigos (de verdade) foram poucos e a situação continua (mais ou menos) assim até hoje. Só que... Bem, caros leitores, vocês me entenderão: não há jeitos de se evitar fazer parte de determinados grupos quando se é adulto e é necessário trabalhar e estudar (em meu caso, gosto muito mais de estudar!). E lá estou eu em meio a turbas/ turmas, tentando manter alguma sanidade mental/ física/ espiritual/ emocional. Me viro para um lado e me deparo com uma pessoa “descolada”, cujo principal discurso é o de “mudar o mundo”, participar de passeatas e outras manifestações, assinar notas de repúdio e cartas, mas que é incapaz de dizer “bom dia” a um desafeto seu (como eu, por exemplo). Alguns, na falta do que dizer/ fazer, preferem espezinhar/ atazanar as vidas de seus (ím)pares, vociferando palavras de baixo calão ou escondendo-se atrás de algumas doses de... Olho em outra direção e percebo que palavras de ordem vindas de algumas gentes servem apenas para “causar” e não efetivamente transformar situações, coisas e pessoas... Outra ainda me pede que leia o que escreveu, pois, afinal, ela precisa de minha opinião e sugestões, mas... No momento em que o trabalho finalmente será avaliado/ aprovado, eu não sirvo para participar/ comungar de sua alegria, pois não sou mais bem-vindo. Devo saber qual o meu lugar, não é mesmo? Há aqueles, ainda, que ao passarem por minhas mãos, ao invés de me agradecerem/ ignorarem preferem me xingar em redes sociais, desrespeitando a minha pessoa e o meu trabalho, cercando-me de constrangimentos desnecessários. E não que eu seja o melhor ou mais perfeito em meio a esta chusma: na vã esperança de não ser acertado por palavras ferinas, indiretas ou ataques verbais frontais, procuro me esquivar de qualquer coisa que signifique contato (inclusive visual), silenciando-me/ encolhendo-me deliberadamente. Foi-se o tempo em que eu imaginava fazer parte de grupos realmente dispostos a avançar coletivamente na direção do bem comum. Quando fui para onde me encontro hoje sabia que estava abandonando um inferno de maledicências, fofocas, calúnias, difamações, denúncias vazias e otras cositas más (Deus meu, como procurei “amigos” que pudessem me estender a mão...), mas não imaginava que os coletivos do qual fiz (tentei fazer, melhor dizendo) parte pudessem ser justamente os lugares sociais onde não quero mais estar, posto que se transformaram em ambientes demasiadamente tóxicos para mim... Não, nem tudo é horrível e feio, mas quando as relações sociais se encontram tão deterioradas a ponto de você não desejar sequer respirar os mesmos ares que alguns outros é hora de pensar: por quê? Para que? E tentando chegar a respostas não definitivas, mas precisas, me volto para o menino que um dia eu fui e digo a ele: coragem, Giovani! O mais difícil já passou e agora você precisa escolher: andar com medo (de não ter salário, de não ter plano de saúde, de não ter estabilidade, de não ter...) ou andar com fé (já que ela, segundo o poeta Gilberto Gil, não costuma falhar)? Tenho preferido andar com fé e, definitivamente, eu não sei o que me espera, mas tenho buscado novos coletivos, grupos de pessoas que têm me recebido (ainda que virtualmente) de braços abertos e corações aquecidos. Tem sido instigante e inspirador conviver com gentes que amam fazer Teatro, que gostam de estudar Teatro e, mais, o fazem despudoradamente, sem amarras ou senões... Além disso tenho me perguntado sobre o que é mais importante para mim e para o menino que vive aqui dentro e tenho descoberto que é hora de procurar um lugar para descansar a carcaça, cansada de tantas viagens, tantos deslocamentos, tantas idas e vindas, voltas e ponteios. Tenho preferido passar tardes e noites ao lado de minha mãe, conversando, aprendendo, rindo, a ficar diante de um computador escrevendo artigos que (quase) ninguém irá ler ou, ainda, envolvido em projetos que já não fazem mais sentido... Medos? Acho que ficou um só (e dos grandes): o de querer sair das súcias (procurem o significado em um bom dicionário e saberão a que se refere o coletivo) onde me meti nos últimos anos e delas, de alguma forma, não quererem sair de mim...

 

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