17 de abril de 2021
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: EXÉQUIAS

Giovani José da Silva
5 ABR 2021 - 10h48min

         Vamos combinar uma coisa? Primeiro, nós iremos buscar todos os meios (lícitos/ legais/ éticos, é evidente!) para sobrevivermos à pandemia/ ao pandemônio que tomou conta de nossas vidas em todo o mundo desde o ano passado. Depois, poderemos então discutir culpas e responsabilidades sobre a situação crítica/ caótica em que estamos mergulhados há mais de 12 meses! Contudo, precisaremos estar vivos para que isso aconteça... Da incompetência de quem nos governa (em todas as esferas de poderes) à crônica falta de educação de brasileiros e brasileiras pode-se desfiar um rosário de inúmeras contas de quem deveria pagar, afinal, as contas. Sendo homem, vi inúmeras vezes outros homens saindo de banheiros públicos masculinos sem higienizar as mãos (e sem a menor boa vontade para fazê-lo), por exemplo. Afinal, quem deve ensinar/ educar a permanecer em fila e a esperar a sua vez? Quem transforma o “principezinho”/ a “princesinha” egocêntrico/ ególatra e excessivamente autocentrado em alguém capaz de conviver e compartilhar com outros os mesmos espaços físicos/ simbólicos? O que estamos assistindo desde o início de 2020 é a demonstração mais evidente de que nossas escolas, tal como se encontram (mal) organizadas, valorizam pouco (ou nada) a solidariedade, a cooperação e a individualidade, contrapondo-se com doses excessivas de competitividade exacerbada e individualismo acentuado. Não é difícil perceber que um país construído historicamente como um caldeirão de desigualdades sociais, de racismos e de outros aspectos pouco auspiciosos não poderia dar em outra coisa. Professores de História, como eu, ficam mais preocupados em “passar o conteúdo”, obrigando os aprendizes a memorizações que não fazem sentido, não têm significados, em uma escola que tem a “cara do século XIX”, quando o país era monárquico e escravocrata. Por não se fazerem relações com a vida cotidiana, de que valeriam as lições sobre a Peste ou sobre a Gripe Espanhola? Assim, chegamos ao título de nosso artigo... O Coronavírus já fez mais de 300.000 mortes no Brasil, com tendência a um elevado crescimento nas próximas semanas e nos próximos meses, devido à falta de vacinas e de ações efetivas que emanem dos poderes constituídos e eduquem as pessoas. Como realizar as exéquias (cerimônias ou honras fúnebres) de todas essas gentes? Eu mesmo não consegui acompanhar os rituais que marcaram a passagem de parentes e amigos ao longo do último ano e isso, sem dúvidas, me incomodou muito. Como estive hospitalizado por quase 10 dias em estado grave, com Covid-19, fiquei imaginando como seriam as minhas próprias exéquias em meio ao turbilhão de emoções que me tomou de assalto! Lembrei bastante dos meus tempos de escola e, desde sempre, pensei-senti que nelas não se fala de morte, embora nas aulas de História os mortos pululem dos livros e da verborragia de professores do componente curricular, ciosos do tal “conteúdo” a ser ensinado. Estamos muito doentes como sociedade e muitos de nós estão morrendo, sem ar para respirar, sem o básico para viver plenamente! Muitos desejam a volta às aulas, esperando que a vida volte ao “normal” o quanto antes. Mas, que “normal” é esse para o qual se quer voltar? Escolas públicas com sérios problemas de infraestrutura, professores mal remunerados e pouco motivados, aprendizes saturados de informação (e com poucos conhecimentos e experiências), políticos em “campanha perpétua”, sempre de olho nas próximas eleições... Eu desejo mudanças profundas e radicais na sociedade brasileira e, para tanto, espero que o tal “normal” nas escolas morra de inanição, surgindo maneiras outras dos fazeres-saberes pedagógicos. Por isso escrevo: para realizar, de alguma forma, os funerais daqueles a quem amo/ amei e de quem não pude me despedir. E para imaginar, também, outro tipo de exéquias. Oxalá possamos fazer juntos, em algum tempo vindouro, os rituais fúnebres de certo tipo de escola, de certa educação que subliminarmente (ou escancaradamente) promove e acentua as desigualdades, os privilégios para pouquíssimos, o racismo, o machismo, a misoginia, a homofobia etc. Para tanto precisaremos nos reinventar como professores, (re)existir como aqueles que promovam, de fato, a vida e não a morte, dentro e fora das escolas...

 

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