30 de junho de 2022
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: OS MEUS, OS SEUS E OS NOSSOS

Giovani José da Silva
20 JUN 2021 - 13h01min

         Já faz tanto tempo que eu não escrevo para a coluna Histórias de Admirar que fiquei me perguntando se deveria continuar a fazê-lo... O semestre que se encerra no próximo dia 30 de junho foi um dos mais difíceis que enfrentei nos últimos anos, especialmente por causa da internação por COVID-19, entre o final de janeiro e o início de fevereiro. Uma vez tendo sobrevivido ao maldito vírus, ainda tive pela frente um longo e (às vezes) doloroso processo de recuperação. Perdi a voz por duas semanas, me senti demasiadamente enfraquecido e, além disso, tive inúmeras obrigações com o trabalho e os estudos (estou no último ano da Licenciatura em Teatro e inventei de fazer uma Especialização em História do Teatro Brasileiro e Ocidental, já concluída... Ufa!). Assim, tenho me mantido em silêncio sobre várias manifestações de desapreço/ discordância com relação a terríveis situações que nos assolam e nos atormentam há mais de um ano. Ocorre que fico me perguntando quando, afinal, iremos olhar para nossos próprios umbigos (não, caros leitores, o mundo não gira em torno deles, está bem?) e corrigirmos rotas e desvios que tomamos coletivamente (não importa se você, sozinho, cara-pálida, só faz coisas boas e blábláblá...). Sempre que faço essa observação há vários pares de olhos me observando de soslaio, como quem diz “Lá vem ele...”. Então, tenho me incomodado com a seletividade com que manifestamos nossa indignação. Um exemplo: coleguinhas batendo palmas (de pé) para a “chinelada” que o rapper supostamente deu no apresentador de programa de TV, colocando-o em seu “devido lugar”. Ora, ora, ora: seria bom lembrar que o mesmo músico incensado pela intelligentsia, há alguns meses esteve fazendo propaganda para um grupo educacional bastante questionável, com a “singela” mensagem de que todos podem “brilhar” (se pagarem em dia as mensalidades, é claro!). Nenhum comentário em minha linha do tempo, nada a declarar sobre esse, digamos, “deslize” do novo “queridinho” de certo tipo de intelectual que “adora” uma periferia sem nunca ter botado o pé nela ou que faz a defesa da escola pública de qualidade, enquanto seus filhos se encontram confortavelmente matriculados em “boas” escolas privadas... Vivemos, assim, desde tempos coloniais: os nossos podem ser rotos, esfarrapados, sujos e imundos, mas não importa, pois são os nossos... Os outros? Ah, não importa se eles têm (ou não têm) qualidades, pois jamais passarão pelo nosso crivo, nunca farão parte de nosso seleto grupo, nós, os “bons”, os “legais”, os “donos da rua”. Dessa forma são constituídas as tribos, formados os “clubinhos”, redutos de gentes “de bem” (sim, ambos os lados acreditam serem os melhores. Já pararam para pensar nisso?). Fico pensando onde um “cara” como eu se situa: esnobado por uns, ignorado por outros, chamado de “chão de escola demais”, “metido a besta”, “arrogante que ‘se acha’ porque ganhou uns prêmios”, “o coitado que acha que tem alguma relevância” e por aí vai! Pois é, já escrevi livros, participei de congressos científicos, mas, também, já fiz novelas, fui a programas de TV de perguntas e respostas e escrevo para O Pantaneiro (de maneira irregular, desde 2013). Não me acho melhor que ninguém, mesmo porque tenho um monte de defeitos (alguns inconfessáveis, é verdade) e já tomei algumas decisões equivocadas ao longo da vida (e outras tantas que se mostraram, com o tempo, muito acertadas). Considero-me independente desde os tempos da primeira graduação (estou terminando a terceira), em História, pois já naquela época me irritava os que se apresentavam como “donos da verdade”, aqueles que conseguiam enxergar o que os não iluminados eram incapazes de ver (alô, alô, coleguinhas marxistas). Igualmente me afastei de gentes que primeiro me perguntavam onde eu tinha estudado, quem me orientara, em uma conversa que desembocava, invariavelmente, em desprezo por não ter estudado com “fulano” ou “beltrano” e em “pena” por não ter feito uma “boa” universidade. Acontece que entre os meus e os seus há os nossos, os despossuídos de qualquer coisa, que não se alimentam com três refeições diárias (pelo menos), que estão doentes (do corpo e da alma), que não tiveram acesso à Escola e, tampouco, à Ciência. Como querem que essas gentes não vendam seu voto (às vezes a única coisa que “têm” para oferecer em troca de alguma miséria)? Como é possível desejar que, de uma hora para outra, saibam quem são os Krenak (e se preocupem com eles), se nas aulas de História (eurocêntrica e conteudista) lhes é ensinado mais sobre cretenses? Como convencer que vacinas são importantes para um povo que ainda tem fome de tanta coisa? Como vencer a ignorância se as salas de aula estão abarrotadas de preconceitos, ignorâncias, estigmas, discriminações, estereótipos de toda ordem? Ah, não nos esqueçamos que a maioria absoluta dos licenciados em nosso Brasil varonil é oriunda de faculdades privadas, como aquela anunciada pelo “querido” rapper. “Brilha, brilha, estrelinha...”

 

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