20 de setembro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: PERDER(-SE)

Giovani José da Silva
6 SET 2020 - 18h52min

         Tenho publicado menos que gostaria na coluna Histórias de admirar em O Pantaneiro nas últimas semanas. O motivo? Não creio que haja apenas um motivo, mas vários... O principal talvez seja certa indisposição em escrever por imposição, em meio à pandemia, aos tempos pandêmicos/ pandemônicos que vivemos. Escrevo por necessidade, por querer expressar em palavras escritas sentimentos/ pensamentos que se não saírem de um jeito, sairão de outros, talvez menos potentes e/ ou interessantes! Escrevo, também, para não me perder. Como assim, Giovani? Explico: estou acostumado, desde pequeno, a tantas perdas que hoje em dia somente tenho medo (real) de perder-me e de não conseguir me encontrar mais. Há várias formas de perder(-se): envolvendo-se com gentes que nos fazem esquecer o que somos, do nosso valor, de nossos valores; chafurdando em vícios que servem muitos mais para nos iludir momentaneamente do que para a satisfação real (qualquer que seja); enganando(-se), roubando(-se), matando(-se) mentindo (inclusive para si mesmo), enfim... Os (poucos) que me leem talvez imaginem que eu uso a coluna para “acertar contas”, “mandar indiretas” ou coisa que o valha, mas a única pessoa com quem tenho que/ preciso me acertar é comigo mesmo. O menino Giovani sempre se sentiu tão deslocado, tão “fora do prumo”, tão... Ao meu mundo, povoado por livros e filmes, poucas pessoas teriam acesso, muito menos por responsabilidade delas e muito mais como “defesa”, proteção de minha parte, uma criança que teve a infância roubada pelos próprios avós e outros parentes (hoje em dia eu os agradeço muitíssimo por isso). Cresci arredio e continuo sendo arisco, desconfiado, uma vez que as perdas foram se avolumando com o passar do tempo. As pessoas que vão cruzando os nossos caminhos criam inúmeras e diversas expectativas a nosso respeito e cabe a você, a mim e a todos decidir se vamos viver tentando (e quase nunca conseguindo) corresponder ao que se espera ou se tentaremos nos libertar do peso de tantas “mas eu esperava que você...”. Encontro-me, no momento, em uma encruzilhada de sentimentos/ pensamentos: tornei-me um bem sucedido profissional, tenho razoável prestígio social, consigo me alimentar pelo menos três vezes (decentemente) ao dia. Para você, caro leitor, que nunca passou por tal tipo de perrengue, talvez tudo isso seja besteira. Para mim nunca foi! Ocorre que agora que o feijão foi conquistado, a duras penas, sinto que seja a hora de buscar o sonho, ou melhor, os sonhos que ficaram para trás, na infância, na adolescência e na juventude difíceis. Não posso permitir que a vaidade (acadêmica, inclusive) tome conta de mim e que me faça desejar apenas que minha vida continue sendo o que ela é/ está. Eu quero mais! E, nesse caso, “mais” não significa mais dinheiro, mais poder ou mais ascensão social. Desejo uma vida com mais poesia, ao lado de minha mãe, de meus amigos, do meu amor, ainda que para isso eu tenha que renunciar ao lugar social conquistado. Como já disse, só tenho medo de me perder em meio à procura que decidi empreender. Muitos, evidentemente, não compreenderão, pois imaginam que eu me sinta completo com o já conquistado. Ouso afirmar que me sentirei pleno quando reencontrar aquele menino/ adolescente que queria fazer Teatro, que não queria ter ido para o ensino noturno tão cedo, nem trabalhar tanto desde os 13 anos com carteira assinada (e lá se vão 35 anos!). Quero dizer a ele que o tempo não cura feridas e mágoas, mas pode abrandá-las; que as perdas somente serão para sempre se decidirmos nos esquecer daqueles a quem amamos e de nós mesmos e dos valores que nos guiam; que podemos ser felizes com pouco, mas não com pouca Arte em nossas vidas, além de pouco alimento. Hoje, 06 de setembro do ano da graça de 2020 (a que alguns chamam de 2000 e vírus), véspera das comemorações da Independência política de nosso país, desejo proclamar algo, também: que saibamos/ possamos transformar círculos viciosos e decadentes em exuberantes círculos virtuosos, que aprendamos a (re)existir, resistindo às tentações de perder(-se) em alguma esquina da vida. Que nos encontremos e nos cuidemos, não nos esquecendo (jamais) do tanto de vida que há “lá fora”!

 

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