31 de outubro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: QUE FALTA FAZ A EDUCAÇÃO...

Giovani José da Silva
18 MAI 2020 - 08h02min

         Tenho relutado em escrever mais sobre os difíceis e enlutados tempos que estamos vivendo, pois não me sinto preparado para enfrentar debates que, por vezes, descambam para o sectarismo, quando não para o deboche e a emulação. Observo atentamente o comportamento de brasileiros e brasileiras daqui, dali e de acolá e somente uma pergunta me passa pela cabeça-coração: quem (mal) educou a tantas gentes? Sim, porque enquanto muitas pessoas vão às ruas defender o indefensável, eu, professor de História há 25 anos, preciso me questionar o que a Escola/ a Universidade, da qual faço parte, ensinou ou, melhor, deixou de ensinar. O fato é que fracassamos de maneira retumbante! Em um país extremamente desigual como o nosso, um professor de História (ou de qualquer outro componente curricular, diga-se de passagem) não pode se prestar ao papel de, além de se conformar “com tudo o que está aí”, ensinar a estudantes – crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos – que devem se conformar com o mundo do jeito que ele é/ está... Uma escola de Educação Básica que ensina apenas a dar respostas “certas”, que não ensina o menino/ a menina a construir conceitos científicos, a elaborar hipóteses, a estabelecer analogias/ relações, enfim, que não ensina aprender a aprender é apenas mais uma instância de conformação/ conformismo. Somos todos herdeiros de uma sociedade escravocrata, excludente, que privilegia – pelo menos desde a instituição das capitanias hereditárias – a pouquíssimos e relega a maior parte da população à miséria e ao desengano. Aprendemos (ou pensamos ter aprendido) desde pequenos, que devemos nos esforçar bastante, a fim de rompermos certas barreiras impostas pela condição de classe social, de cor da pele, de gênero/ de geração, enfim, de tudo aquilo que nos separa, nos divide, nos exclui. Sabemos o que se espera de nós no ambiente escolar: que nos comportemos/ conformemos bem, que saibamos as respostas “certas”, caso contrário seremos punidos e não ganharemos “estrelinhas” ou “pontos”... Nas universidades/ faculdades a situação não é nada diferente. Muitos (quase todos) com quem eu já cruzei pelos corredores e salas de aula na condição de acadêmicos chegam ao Ensino Superior e não sabem o básico: ler – explorar, compreender, interpretar, criticar – um texto e, muito menos, o mundo que os rodeia. Nos cursos de História recebem uma enorme quantidade de “conteúdos” eurocêntricos, racistas e desconectados da realidade em que vivem, em que viveram seus antepassados. Sim, porque nas narrativas oferecidas nos “preguiçosos” seminários de História da Europa (que recebem os eufêmicos nomes de Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea), por exemplo, mulheres, crianças, idosos, homossexuais desaparecem... Indígenas, africanos e seus descendentes, então, quando surgem nas narrativas são alocados em determinados nichos. Como esperar que gentes (mal) educadas dessa forma se questionem sobre os rumos tomados pela sociedade brasileira? Se aprendem/ aprenderam a viver (eternamente) sob a heteronomia (isto é, a sujeição a leis exteriores ou às vontades de outrem, em completa ausência de autonomia), como poderiam libertar-se do ardente desejo de ver em alguém – ao centro, à direita, à esquerda, vindo dos céus! – a solução para todos os problemas? Se não lhes são ensinadas atitudes de empatia, de solidariedade, de cooperação/ colaboração, de respeito e de valorização, dentre outras, como esperar que se compadeçam daqueles que não são seus parentes ou pessoas mais próximas? “É que Narciso acha feio o que não é espelho...”, diria Caetano Veloso, nos lembrando que muitos só enxergam/ querem enxergar o próprio umbigo, inclusive professores. As escolas/ universidades/ faculdades deveriam servir para isso: para confrontar nossos egos (não, a sua opinião, assim como a minha, nem sempre é bem-vinda ou válida!), ensinando-nos a indignação, o inconformismo com “o que está aí”, a busca pela autonomia do ser/ estar. Procedimentos de pesquisa, de como chegar a conclusões após o encadeamento de ideias, de refutação de argumentos, de análise e de síntese, deveriam ser o comum no cotidiano escolar e não o extraordinário. Ao cobrarmos apenas “respostas certas” em provas escritas, ao não educarmos para o “falar bem em público”, contentando-nos com qualquer coisa que se apresente em “nefastos” seminários (em que estudantes, invariavelmente, acotovelam-se e mal sabem a respeito do que estão papagueando), ao fecharmos os olhos (o nariz, os ouvidos e outros sentidos) para o problema crônico da Educação no Brasil, é possível que continuemos a redigir notas de repúdio, a ridicularizarmos certas figuras públicas e a construirmos discursos de que o problema são sempre os Outros (os “ianques”, o sistema capitalista, a Covid-19, a China etc.). Afinal, o inferno, como diria Sartre, são os Outros! Lamento em informar, caros leitores: Nós também somos o inferno!

 

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