30 de outubro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: SER, TER, APARENTAR

Giovani José da Silva
13 OUT 2020 - 20h42min

         Engana-se quem pensa que ainda vivemos o dilema posto por, entre outros, Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, filósofo e sociólogo alemão do século XX, bastante influenciado por Freud e Marx. Em uma obra lançada em 1976 (Ter ou ser?),  Fromm analisava o que ele denominou de os “dois modos básicos da existência: o modo de ter e o modo de ser”. O modo “de ser” referia-se à experiência, enquanto o modo “de ter” seria o de uma sociedade aquisitiva que repousa no lucro e no poder, como pilares de sua existência. Não ouso discordar do eminente colega, mas eu acrescentaria um terceiro modo básico: o “de aparentar”. Sim, caros leitores, não precisamos mais nos preocupar se “seremos” ou “teremos”. Basta aparentarmos “ser” ou “ter”, apenas isso! Aparentar ser honesto, inteligente, rico, agradável ou qualquer outro adjetivo que indique “boa” qualidade já é o suficiente, especialmente para a moçada que cresceu sob a égide do consumo desenfreado e do mundo “maravilhoso” da Internet. Não há nada que não possa ser melhorado, retocado, maquiado, camuflado, desde rostos e corpos a sanduíches de fast-food. Nos (auto)enganamos e desejamos ardentemente acreditar que estamos sempre fazendo o melhor, a nossa parte, o máximo! Sério? Por que será, então, que tudo ao redor parece tão ruim, tão embolorado e desbotado? Isso me faz lembrar, por exemplo, que o que muitos buscam nos bancos escolares (da Educação Infantil ao Ensino Superior) seja apenas uma certificação, nada a ver com aprendizagens, experiência e melhorias na qualidade do ser humano que se submete a rituais pedagógicos dos mais variados. Não importa se o menino ou a menina da periferia da periferia mal sabe ler ou escrever: ele/ ela tem um diploma do Ensino Médio (ou do Fundamental, tanto faz) que aos olhos dos Outros parece/ aparenta ser o suficiente para a entrada no mercado de trabalho ou para o empreendedorismo, tão em voga atualmente. E os que têm nível superior, então, os que colecionam pós-graduações (Especialização/ Mestrado/ Doutorado), acrescidos de estágios de pós-doutorado e concursos para titular, livre docente ou coisa que o valha? Em seu pequeno mundo orbitam jovens (às vezes nem tão jovens) ávidos por seguir os passos do “mestre”, os que carregam suas pastas, os que serão convidados para os convescotes científicos, os que receberão bolsas e premiações (se se comportarem de acordo com as normas da ABNT)... Não importa se o/ a cara não sabe o que é lecionar, se suas aulas se traduzem em modorrentos seminários ou numa sequência interminável de slides (em passado recente eram lâminas ou transparências e no lugar de projetores havia retroprojetores...): ele ou ela é doutor, estudou com “fulano”, fez estágio com “sicrano” e conhece “beltrano” por ter passado uma temporada na Université d'apparence (não existe tal Universidade, mas o nome francês sempre indica algo chic, pomposo e civilizado!). Fomos acostumados a aparentar ser ou ter e já nos esquecemos, há tempos, como é apenas ser ou ter... Na ausência de uma casa como aquela das revistas, tira-se uma fotografia com um ângulo cuidadosamente escolhido para aparentar que se está/ vive em um lugar glamouroso. Você não conhece aquele “famoso”, mas faz questão de tirar foto com ele, para aparentar (alguma) intimidade e, é claro, provocar inveja nos Outros. No meio acadêmico ocorre algo semelhante: muitos não leem metade daquilo que afirmam ter lido, adquirem obras que ficarão esquecidas nas estantes (tão úteis em tempos de “laivis”, como cenário), mas que servem para aparentar uma erudição mais almejada que, de fato, conquistada... Não ouvimos ninguém dizer que vai à “academia” (universidades/ faculdades) para melhorar o espírito, a mente, mas ouvimos aos montes gentes afirmando que vão às academias de ginástica porque querem ter corpos mais sarados, malhados, ainda que à custa do uso de anabolizantes ou outras substâncias danosas à saúde! Assim, vamos nos acostumando à destruição acelerada de tudo, inclusive dos recursos naturais, à deterioração das relações humanas, à degeneração do que poderíamos ser e ter se fôssemos mais honestos uns com os outros. A frase “Não basta ser honesto, tem que aparentar ser honesto” já não nos serve mais. No lugar dela cabe perfeitamente “Aparente ser...” e tudo parecerá se resolver... Afinal, se deixamos que a publicidade – com seus truques e golpes baixos, nos fazendo acreditar que a felicidade pode estar em um frasco de pílulas ou em um carrão novo (ou no cheiro dele, hoje em dia obtido sinteticamente) – nos engane deslavadamente, por que não permitiríamos que “gurus” de autoajuda – alguns com muitos títulos acadêmicos “importantes”, outros religiosos e “filósofos” – não nos oferecessem “fórmulas” de sucesso e de bem-viver. De tanto “aparentar”, não sobra tempo e energia para ter (vergonha na cara, por exemplo) ou ser (alguém melhor em um mundo miseravelmente dominado pela mediocridade e pela vaidade)!

 

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