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07 de julho de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: SOMOS O QUE, MESMO?

Giovani José da Silva
1 JUN 2020 - 16h16min

         De antemão aviso aos caros leitores que não tecerei críticas a quem adere a este ou àquele movimento em voga (ou da moda, como queiram). Antes, me coloco a pensar-sentir por quais meios e caminhos nós nos fizemos, coletivamente, apresentando-nos e expondo nossas ideias e ideais e que sociedade é essa a qual pretensamente pertencemos. Tenho visto e ouvido muitas manifestações, virtuais e outras, de posicionamentos políticos, ideológicos, religiosos, de diferentes escopos, espectros e aspectos. Fico na dúvida em aderir ou não a essa ou àquela posição, não por medo de ser rotulado ou, ainda, de ser tachado disto ou daquilo, mas por não me sentir à vontade de seguir alguma corrente(za). Afinal, somos o que, mesmo? Os tais “70%”? “Antifas”?  “Minions” desta ou daquela liderança? Já escrevi mais de uma vez aqui na coluna o que penso sobre o barro de que fomos feitos brasileiros: da torpe experiência da escravidão (de africanos, de seus descendentes e de indígenas, também, embora esses últimos sejam esquecidos quando o assunto é escravização) surgiu uma sociedade assentada em privilégios para poucos (pouquíssimos, aliás), em extrema violência – simbólica e física –, em gentes que embaralham o público e o privado, ou seja, não distinguem (e nem fazem questão de distinguir) a casa e a rua... Temos um longo caminho a percorrer e, antes que alguém diga que me encontro em cima de um muro qualquer, é certo que precisamos olhar para esse pesado passado, pois temos um “legado”/ fardo maligno, traduzido em rotinas, poderes e saberes coloniais: um entulho que não cabe embaixo de nenhum dos tapetes persas da sala de estar da casa-grande! Quando aqui escrevo insistentemente que precisamos de Educação, penso que deveríamos nos perguntar desde quando mulheres, negros e outros segmentos sociais (brancos pobres, por exemplo) puderam frequentar massivamente escolas com regularidade... Tal fato é recente, do final do século XIX e início do XX, mal tendo completado, portanto, uma centena de anos... Isso significa dizer que por quase 400 anos a maior parte da população do que passou a ser chamado de Brasil (um nome colonial, dado por europeus que apagaram os outros nomes atribuídos à terra por não europeus) desconheceu o que era frequentar um espaço formal de ensino-aprendizagem, estabelecendo-se como sociedade sob o signo de intensa violência e imensa desigualdade! Mesmo com a independência política do país, o quadro não mudou muito, embora telenovelas e outras obras audiovisuais e literárias tentem pintar nossos imperadores com tintas benevolentes. Quem somos, afinal? Não, cara-pálida, eu não estou perguntando a você (e a mim, também) como gentes singulares/ indivíduos, mas como uma coletividade historicamente construída na opressão a grupos, na proteção a poucos, na negação de suas próprias origens. Somos racistas, homofóbicos, misóginos, machistas, preconceituosos, “malandros”. Somos aqueles que, ao recebermos uma notícia ruim, matamos o mensageiro (especialmente se ele for negro, pobre, gay etc.) para que ela não se espalhe! Somos descendentes de gentes que costuravam as bocas de outras gentes com linha e agulha, que machucavam uns aos outros com palavras e armas, que não tiveram pudores em matar, roubar, enganar, explorar, aproveitar, “dar um jeito”. E, claro, não nos esqueçamos: errados são/ estão sempre os Outros! Os Nossos (parentes, amigos, correligionários, colegas de departamento...) podem até cometer equívocos, mas sempre haverá justificativas para ações e palavras (indefensáveis), pois, afinal... O que importa, se no cotidiano não conseguimos sequer cumprimentar educadamente aquele nosso desafeto no trabalho, por exemplo, se nas redes sociais – ou mesmo em passeatas – nos apresentamos como pessoas democráticas, corretas, que lutam por direitos para todos (secretamente, menos para nossos malquistos), antifascistas (de “araque”)? Somos uma terra de gentes que apostam no compadrio, no “tapa nas costas” de amigos (e “faca nas costas” de inimigos), nos olhos fechados para o que é feio e mau, sempre de acordo com nossos interesses, é claro! Reclamamos da ausência da Justiça, mas não fomos justos nem quando demos o nome de “guerras justas” aos ataques espúrios realizados contra populações indígenas, em nome da Fé, da Lei e do Rei. Quem diz que não tem nada a ver com isso pensa/ sente que é descendente de quem? Nossos ancestrais bem poderiam ser uma indígena/ negra escravizada, um capitão-do-mato, um nobre falido e arrogante, um branco livre e pobre, uma migrante analfabeta, enfim, alguéns com pouca ou nenhuma educação formal, uma vez que escola, na maior parte do tempo, não foi lugar para preto, pobre ou mesmo para mulheres, no Brasil. Basta ver a quantidade de gentes mal-educadas (os que têm moradia, por suposto) nas ruas, em meio à pandemia que nos assola! Em nosso imaginário coletivo (e delirante), entretanto, somos o povo mais alegre, mais simpático, mais hospitaleiro, mais cordial, os (únicos) pentacampeões mundiais. Somos o que, mesmo?

 

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