14 de maio de 2021
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Paulo Corrêa de Oliveira

DOIS APITOS DO TEMPO

dothCom Consultoria Digital
9 JAN 2021 - 09h52min
Sou da geração em que não havia recurso escolar superior no nosso Estado de Mato Grosso, uno. Os pais da época, que almejavam um brilhante futuro para seus filhos, acreditavam que só o estudo iria favorecer esse desejo. Apesar de, na maior parte das vezes, eles próprios não possuirem um canudo universitário.
No final da infância e início da adolescência, os jovens eram enviados, mesmo com grande sacrifício econômico da família, principalmente para as cidades do Rio de Janeiro ou São Paulo. Sem parentes para os acolherem nas metrópoles, eram acomodados em internatos ou pensões estudantis.
 Os pais assumiam essa tarefa como uma obrigação moral.
O contraste violento entre o sistema livre de se viver no interior e a vida metodológica, cultural, das grandes cidades trouxe, para esses jovens, um impacto de responsabilidade existencial. Alguns, formados, doutores, retornaram mais tarde para suas cidades de origem. Outros, nunca mais. Os que retornaram, após um longo período, perceberam que a vida era bem diferente daquela que havia deixado. A cidade, da sua lembrança, era outra. Os amigos de outrora casaram, mudaram ou se distanciaram socialmente.
Nesse meu escrito de reflexão, quero relembrar duas figuras significativas do nosso Estado que fizeram relatos emocionais dessa transposição de ciclo de vida: Rubens Corrêa, o ator de teatro, que não retornou para sua “Cidade Presépio”, Aquidauana, e, Abílio Leite de Barros, o intelectual, o professor escritor, natural de Corumbá, que voltou novamente ao Pantanal.
Une a história dos dois, essa etapa da vida em que o som de um apito marcou a transposição.
Rubens Corrêa, no seu monólogo, “Aquidauana”, narra sua vida livre na infância. Fala do prazer de andar descalço, depois da chuva, pelas ruas sem calçamento, entre as poças que se formavam no meio do areal. O subir, de bicicleta, a rua que dá para a Ponte Velha e, depois acelerar com pedaladas na descida, até atravessar o rio Aquidauana. Lembra as brincadeiras, em cima dos muros, dos grandes quintais.  O circo. O Cine Glória. Os ritos religiosos, teatralizados, assistidos na Igreja Matriz. Os colegas do Grupo Escolar. Os doces feitos pelas tias.
Rubens imita o apito do trem da Noroeste que o levaria para o Rio de Janeiro. Era o verão de 1942. - Pooooooooooooo!!! E afirma: “Alguma coisa estava sendo, delicadamente, arrancada de dentro de mim, para sempre. Tudo muito difícil de compreender”.
Abílio Leite de Barros, no seu livro “História de Muito Antes”, relata que num domingo embarcou no navio “Fernandes Vieira”, inicio da viagem para sair de Corumbá, e também para enfrentar os estudos no Rio de Janeiro: “Não me movia nenhum entusiasmo. Ao contrário, pesava-me deixar aquele pequeno mundo cheio de lembranças e emoções”. Lembra dos seus amigos da terra: Paraguaio, Turquinho, Jacaré. Os banhos nus na “Cacimba da Saúde”. As aventuras no Rio Paraguai. O “Cine Santa Cruz”. E ele conclui: “Nesse momento o Fernandão encheu a tarde com o seu sonoro e solene apito. Era o adeus! Senti um aperto. Hoje sei que estava me despedindo da infância”.
É do Abílio Leite de Barros, também, a reflexão sobre o destino dos seus amigos do passado: “Não devo, não quero perseguir os caminhos da vida e desnudar destinos. Prefiro deixá-los – aos amigos e a mim mesmo – ainda iluminados pelas ilusões da infância. Que importa a vida depois?”
Foram dois apitos emocionais e saudosos, do trem e do navio, que selaram o ciclo de vida de dois inesquecíveis destinos.
 

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