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Paulo Corrêa de Oliveira

O Caçador de Diamantes

Era uma vez um menino chamado Zé Estêvão. Era uma vez, Décio, seu irmão mais velho. Ambos nascidos em Aquidauana. Décio foi fascinado pela arte do cinema. Tanto que, em 1941, edificou um cinema, templo cultural da cidade.

Zé Estêvão começou sua vida profissional como fotógrafo. Com a influência familiar pelo cinema, pois seu irmão, Décio, era dono do Cine Glória, sua mãe, nos primeiros tempos, era bilheteira e seu pai, porteiro; Zé Estêvão se uniu ao irmão nas filmagens de documentários de carnaval e festas cívicas na cidade, que eram sucessos populares vistos no cinema da família.

Era uma vez um menino, chamado Antônio, que morava em Bela Vista. Lá, Zé Estêvão, montou sua Casa Foto e, conheceu seu amigo, Antônio Garcia. Ele dizia que Zé Estêvão era o irmão que ele nunca teve, pois possuía só três irmãs, que residiam em Ponta Porã. 

Um dia, Garcia apareceu com um livreto chamado X-9. Ele se encantou com uma história lida, de garimpo, e o levou ao Zé Estêvão. Eles sonharam juntos a criação de um filme, baseado nessa história.

Garcia mudou-se para Aquidauana. Trabalhou como locutor de rádio, e criou um serviço de alto-falante no Bairro Alto. Mais tarde, construiu literalmente, à mão, ou à marteladas, a sua Rádio Independente, ou, a chamada, popularmente, Rádio Martelinho.

Zé Estêvão voltou novamente para sua cidade natal. E os dois amigos retornaram o velho sonho de realizar um filme. O título escolhido: O Caçador de Diamantes.

A história começaria com um carteiro (Zé Estêvão) que tomaria conhecimento da existência de um filão de diamantes inexplorado, em terra indígena. Há interferência de um vilão. Há uma ambientação numa aldeia indígena inóspita. Há o rio Aquidauana. Há a disputa por um amor. No final, tudo terminaria bem, como os clássicos filmes americanos: O carteiro retornaria para sua cidade, com o sapicuá cheio de diamantes e trazendo, na canoa, sua amada que, por uns tempos, ele acreditava ter sido assassinada pelo vilão.

Garcia cultivou, por alguns meses, uma enorme barba, para sua figuração, como ator. Eles iniciam as filmagens em 1957. Infelizmente, por falta de recursos, acabaram desistindo da idéia.

Otávio Guizzo, crítico de cinema, em 1972, vendo trechos dessa filmagem, comentou: “Meninos, vocês precisam ter visto o que eu vi no copião desse filme... Que coisa fantástica para a época. Tendo Zé em primeiro plano, travestido de carteiro... Cenas do José Estêvão como garimpeiro rodando rio abaixo em canoa...Existem tomadas de cenas lindíssimas feitas das margens do rio, aparecendo em primeiríssimo plano cipós e ramagens e em segundo plano, bem focada, a canoa deslizando rio abaixo. Existe outra, de grande beleza plástica, feita do meio da canoa onde focaliza a ponta da mesma avançando qual um aríete por aguapés. Essa é ontológica mesmo! Noutra o José Estêvão atraca a canoa na beira do rio, abre uma lata de sardinha e começa a se alimentar sem notar que sorrateiramente uma cobra se aproxima. Cena cheia de suspense e muito bem feita... Cortes precisos, planos os mais diversos; carrinhos, enfim, pela pequena amostra sente-se que o diretor entende do riscado... Não deixo por menos, se este filme fosse concluído à época e se o grande Vilas Lobos o visse faria de bom grado a partitura musical do mesmo.”

Para término desse relato, informo que todas as personagens envolvidas neste fantástico sonho, o vento levou. 

Consta-se que nos arquivos da Cinemateca de São Paulo estão guardadas cerca de uns quinze minutos de “O Caçador de Diamantes”. O filme que teria sido, em Mato Grosso do Sul, um dos pioneiros dessa arte..

 

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