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Wagner Ferreira da Silva

Ataques em escolas: uma discussão necessária?

A discussão a respeito do comportamento delinquente tem tomado conta dos noticiários, das rodas de conversas entre amigos, das redes sociais e até de programas especiais na mídia tradicional e na internet, tudo causado pelos recentes casos de violência praticados em uma escola estadual na Vila Sônia em São Paulo-SP e na “Creche Cantinho Bom Pastor”, em Blumenau-SC.

Esses casos trazem à tona o que a mídia tem chamado de “ataques” ou “massacres”, o que nos impele fazer algumas considerações, enquanto profissional de segurança pública estudioso do tema a mais de 25 anos.

Importante destacar que esse tipo de comportamento, embora muito chocante e reprovável, não é tão incomum como pode parecer. Um dos primeiros casos que mereceu bastante atenção da mídia e dos especialistas no assunto foi o conhecido “Massacre de Columbine”, ocorrido no estado do Colorado nos Estados Unidos em 20 de abril de 1.999.

Nesse caso em especial dois ex-alunos invadiram a Columbine High School e mataram 12 alunos, 01 professor e feriram 21 outras pessoas, além de outras 03 pessoas que se feriram enquanto fugiam dos ataques, depois da intervenção da polícia os autores se suicidaram.

No Brasil o caso mais emblemático foi o registrado em 07 de abril de 2011, na escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo Rio de Janeiro-RJ onde um ex-aluno da escola, invadiu o prédio e de posse de dois revólveres disparou aleatoriamente matando 12 alunos, entre 13 e 15 anos de idade, e feriu outros 22, e novamente quando interceptado por policiais militares cometeu o suicídio.

Poderíamos citar diversos outros casos e seria fácil perceber a coincidência das características da casuística. Diversas pesquisas têm demonstrado isso, o jornal Washington Post, no ano de 2021, analisou casos e percebeu que 70% dos autores de ataques em escolas eram menores de idade, sendo a média de 16 anos.

Outra pesquisa desenvolvida pelo psicólogo americano Peter Langman com base em informações de 56 autores de ataques em escolas, que deu origem ao livro Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters (“Por que jovens matam: por dentro das mentes de atiradores em escolas”, em tradução livre) mostram outros aspectos do perfil dos autores que também podem ser encontrados nos executores de ataques em escolas no Brasil:

  • criação em família disfuncional;
  • isolamento social;
  • crença de que recebiam tratamento injusto ou inaceitável;
  • autores queriam ser vistos como perigosos; e
  • desejo de fama.

Esse resultado nos faz destacar a importância da família, da escola e dos alunos que compreendendo melhor o fenômeno e os fatores que contribuem, podem inibir e prevenir tais ocorrências, claro com auxílio das forças de segurança pública.

Algumas medidas como o enfretamento ao bullying no ambiente escolar, o controle por parte dos pais do que seu filho tem acesso na internet e nas redes sociais, a observação do comportamento dos alunos pelos profissionais da educação e o monitoramento cibernético por partes dos órgãos policiais podem contribuir para inibir e controlar fatos desta natureza.

Mais do que um problema de polícia ou da simples presença policial é um problema que exige uma discussão mais ampla, focada na solução multidimensional e multidisciplinar.

Podemos discutir inclusive se a cobertura excessiva da mídia, produzindo documentários a respeitos da vida dos autores, não contribuem para atingir a fama desejada e, portanto, influencia gerando fenômeno do contágio e contribuindo para que novos casos sejam registrados.

Podemos discutir sobre o acesso às armas de fogo à população há quem diga que poderia contribuir para diminuir a casuística e há quem diga que essa discussão é a principal causa dos ataques, mesmo nos casos em que os ataques são realizados com facas e machadinhas, ou outros instrumentos distintos da arma de fogo.

Podemos discutir sobre a rede de saúde mental no Brasil, se há falhas quando da necessidade de se prestar uma assistência para tratamento de transtornos psíquicos.

Podemos discutir sobre a necessidade de que ofereçamos um treinamento mais adequado aos profissionais de segurança pública e das redes de ensino para identificar pessoas com problemas mentais e até como lidar com elas.

Podemos discutir sobre o nosso sistema jurídico, sobre o papel do judiciário nesses casos e sobre a execução penal no Brasil.

Ou seja, há muito assunto para que as discussões em rodas de conversas e os noticiários possam ser alimentados durante dias, mas o que não podemos deixar de fazer é agir, dar atenção às nossas crianças e adolescentes e entender que o problema exige solução coletiva e complexa.

 

*É Coronel da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, graduado em Direito e pós-graduado em Segurança Pública e Fronteiras.

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