Pré visão do dia! Bom dia!

30/10/2021 11:24:00


Deitados, víamos o tempo passar pelas frestas ou pela imensidão do céu aberto, como mulher com a nudez escancarada, não dá para não olhar... assim era o tempo, um escândalo diário, esfregando sua belezura toda na nossa cara, agora, senhores e senhoras, há um céu mais avermelhado, o tempo parece meio menstruado, com alguns respingos de violeta genciana, um roxo aguado, tipo a “a dama de lilás me machucando o coração”, de manhãzinha ou à tardinha, o tempo tem sido explosão.
A exuberância da noite e do dia acentua a nossa agonia ou, tal como deveria, nos faz enxergar alguma poesia?
Que tempo é esse, que tão ligeiramente se refaz, escurece e clareia, clareia e escurece, muda rapidamente, querendo ensinar pra gente que tudo que está feito, voa e se desfaz, tudo passa e nada volta mais....uma nuvem de poeira cobre a cidade inteira, mancha o tempo, deixa sequelas nas fragilidades das janelas, medos de tudo escapar pelos vão dos nossos dedos?
No dia a dia do sol claro ninguém olha para o lado e seguimos a ignorar as dores do mundo, calados...mas  a vida quer deixar legados e, como gente, o tempo adoece como na beleza, implícita, da doença que muda o rumo das estações humanas, faz ser noite quando é dia, qualquer dia da semana. 
A pretensão do tempo, com ou sem previsão, talvez, seja nos ensinar que é preciso conter e respeitar, que não há condição que faça ser seguro um lugar, porque o tempo derruba estéticas, inspira prosas poéticas. Instável, ameniza e acentua dores, agiganta a saudade, mata, arrebata, constrói, destrói e desconstrói tudo o que há e nós.
Raquel Anderson


Raquel Anderson - Raquel Anderson