18 de agosto de 2022
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Raquel Anderson

Era assim....

Raquel Anderson
18 SET 2020 - 06h00min

O meio fio que abraçava os paralelepípedos era alto. No meio da rua, onde inicialmente foram instalados os postes de luz, havia um espaço de terra, ovalado, preenchido com pedregulhos que derrubava as bicicletas, monaretas, carroças, charretes e tantos desavisadas que viviam com joelhos ralados, verdadeiras rendas ensanguentadas, anestesiadas com mertiolate, sopros contaminados com cusparadas e alguns beijinhos.

Na calçada, um único batente, alto, na largura da porta, de madeira pintada em verde, com duas folhas, rente à rua, dava acesso a toda a casa, com uma maçaneta dourada, ondulada, de encher os olhos e as mãos de aconchego, pura belezura.

Três ou quatro palmos separavam a porta principal da janela, com duas folhas, igualmente pintada na cor verde, com trincos e ferrolhos, cujo parapeito, largo, permitia um debruçar prazeroso, largando o corpo para sapear a vida dos outros, assistir a procissão, o funeral, o falatório de quem passava... dia e noite. Muitas vezes eram utilizados travesseiros para acomodar os braços, dada a longa permanência na janela que acomodava, tranquilamente, duas pessoas lado a lado.

Na sala, um lindo piso hidráulico com losangos verdes, terracota, rosa chá e branco, com rodapés cor de cerâmica, ornamentavam o cômodo inteiro e, na metade da sala, próximo da porta e janela principais, já descritas, quatro cadeiras de ferro, redondas, em formatos esféricos, cujo design e concepção, do início dos anos 50, transformou a forma como as pessoas se sentavam e se relacionavam com o espaço, com forros soltos, de napas coloridas, acolhiam, lindamente, uma mesinha de centro, igualmente arredondada, com tampo de vidro e um arranjo de louça, imitando tronco de árvore, no estilo art noveau, cheio de areia, com florezinhas brancas e amarelinhas, tipo miguezinhos, artificiais.

Encostada na parede, de frente para as cadeiras esféricas, uma vitrola de madeira, retangular, envernizada, alta, dava o tom descolado do ambiente, com inúmeros discos de vinil, sobressaiam os do Roberto Carlos, claro.

Na mesma sala, ampla, duas poltronas individuais que compunham o jogo de sofá, na cor vinho cintilante, com pés de madeira, pintadas e envernizadas em preto, dividiam o ambiente e, outra mesinha de centro, retangular, com tampo de mármore, com um trilhinho de crochê, era composta com um vaso solitário fecundado com uma rosa vermelha, aveludada, simbolizando poesia e solidão.

 Na parede de frente para a mesinha, o sofá grande, vinho cintilante, de molas, retrátil, podia transformar-se numa deliciosa cama de casal.

Duas almofadas redondas com botão ao meio, na mesma cor do sofá o enfeitavam. Acima do sofá um quadro grande pintado com fotos retocadas e ilustrado com alguns dos filhos numa jangada, retratava a vastidão da infância.  

Na parede oposta, uma mesinha alta de ferro abrigava a primeira televisão da família, pequenininha, em preto e branco. O hit era a novela: As pupilas do Sr. Reitor, produzida pela Record, transmitida entre 1970 e 1971, baseada no romance homônimo do escritor português, Júlio Dinis, publicada em 1867.

Ainda na sala, no meio da peça, do lado esquerdo, uma porta alta, com duas folhas, pintadas na cor cinza claro, com tinta a óleo, era muito convidativa para cavucá-la, era como tirar esmalte da unha puxando com os dedos, cavucávamos o portal, arrancando nesgas de tinta, escondido, claro.

A referida porta dava acesso ao quarto das moças: duas camas no estilo viúva, para as duas moças mais velhas e três camas típicas dos anos 50, com cabeceira e pés com designers triangulares, para as moças mais novas. Na frente das camas um guarda-roupas de madeira, em jacarandá, com três portas, três gavetas embaixo das portas e um espelho bisotado,  do lado de dentro da porta do meio. Embaixo da janela do quarto, que dava pra rua, ficava uma comoda/camiseiro, com um relógio de mesa e, na parede oposta, um portal com cortina de chita floral separava o quarto das moças do quarto do casal, que tinha janela que dava para o corredor e outra porta que saia para a sala de jantar. No quarto do casal: uma cama estilo Luís XV, um guarda-roupas de três portas, um baú e uma mala de ferro, vinda de Portugal, de navio, que ficava embaixo da cama, com documentos, pouco dinheiro e alguns bombons para serem distribuídos aos netos.

Na sala de jantar entre a porta do quarto e a porta de acesso à sala principal, a mesa do rádio, majestosa, num canto, com a cadeira para sentar e esperar esquentar a válvula e sintonizar no noticiário.

A mesa grande, com dez cadeiras, simples, tinha um encerado grosso, estampado, sobre ela. A geladeira, vermelha, de congelador separado, grande, era a atração da peça, acomodando pinguins de louça, com bicos dourados. O armário guarda-louças, jogo da mesa, acomodava taças de champagne e um belíssimo jogo de chá, em porcelana, azul cobalto, além de licoreiras e poncheiras.

Na cozinha, retangular, havia um grande armário de fórmica, em azul e vermelho, uma pia com a pedra cascorenta e uma cortininha, bordada, emoldurava a pia. O fogão, vermelho, com asinhas e gaveta/estufa, em cima do forno.

Um paneleiro triangular, alto, enaltecia as panelas em alumínio, com um brilho “que dava para tirar a sobrancelha.”

Pendurado, juntamente com panos de pratos, os aventais possuíam bolsos, confeccionados, especialmente, para acomodar as revistas de palavras cruzadas que eram preenchidas no aguardo do cozimento dos deliciosos quitutes.

Do lado oposto, um portal com cortina em algodão cru, bordada com aplicações de bonequinhas e acabamento em festone permitia a entrada na sala de costura. Uma sapateira de madeira, com cortina em estampa mamãe Dolores, de babadinhos, reunia todos os calçados da casa.

Um baú, outro camiseiro, um rádio de madeira, cuja tela de som, tinha o desenho de uma paisagem: uma casinha e uma árvore.

No meio da sala a máquina de costura, Vigorelli, magnífica, preta e prata, de pedal, era o maior ganha pão da casa. Caixas de latas, pintadas com damas antigas, caixas de chapéu, e todo o baú, de tampa abaulada, guardavam linhas com carretéis de madeira, bastidores e inúmeros riscos com desenho e monogramas para os bordados.

A janela abria para a varanda do fundo, cujo acesso era pela cozinha, uma escadaria com corrimão de ferro, só de uma lado da escada. O piso, vermelhão, também era encerado com cera em pasta, passada a mão e lustrada com escovão, diariamente. Muitas plantas em vasos de barros, em latas e caldeirões velhos, enriqueciam o ambiente.

Uma cadeira preguiçosa de ferro, com tecido de lona listrada, uma rede e uma mesa quadrada, com banquinhos, para refeições menores.

No canto da varanda, próximo ao pátio externo, ficava a pia, de louça branca para higienização bucal e para fazer a barba.  O tanque de lavar roupas, ao lado da pia, era quadrado, grande, de cimento e fazia parede e meia com os banheiros que eram do lado de fora, divididos em duas casinhas, uma com vaso sanitário e a outra com o chuveiro.

No pátio, cimentado, uma meia água, incrustada no muro, coberta com telhas romanas, repleta de orquídeas, bocas-de-leão, sapatinhos de rainha avencas e brincos de princesa, eram plantadas em vasos e em latinhas.

Um cágado andava por lá para ajudar na cura da bronquite dos netos.O portão ao lado, de madeira, era a saída e entrada para o vão lateral, um largo corredor de acesso aos vizinhos, terminando no pirizal.

Uma tela de arame dividia o pátio e o quintal para o criame de galinhas, garantia de ovos e deliciosos almoços de domingo.

Era assim... um pouco do muito da casa da vó!

 

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