05 de julho de 2022
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Raquel Anderson

Hoje!

Raquel Anderson
18 SET 2020 - 07h40min

Quatro horas da manhã. Um forte cheiro de queimada, de fumaça, invadiu o quarto.

Levantei, verifiquei todas as tomadas, tudo que estava plugado, normal.

Abri a porta, saí no pátio, olhei para todos os lados, todas as casas, nada. 

O céu, cinza, esfumaçado, com névoa foi o sinal a me alertar....

É o Pantanal!

Deite-me na rede, na varanda.
Na rede, podemos experimentar uma posição fetal, encolhi-me. 

O movimento da rede em sincronia com o meu jeito de feto remeteu-me ao sofrimento do nascer, quando a repulsa das contrações uterinas nos colocam pra fora da casa mãe.

Senti medo da vida, como é na resistência existente de vir ao mundo e chorei.

O Pantanal é a primeira lembrança da minha existência, nele, cresci, descobri o rasteiro, a vastidão, fiz garatujas com gravetinhos na areia, me espichei feito lagartixa na taipa do açude, bebi água de cacimba, matuliei na grota, acompanhei a construção do João de Barro, diariamente, bebi leite na caneca esmaltada, direto da teta da vaca, cuidei do sanhaço, brinquei com pirilampos, enfeitei os cabelos com florezinhas de laranjeira, banhei cavalos na baía, afaguei bezerrinhos, cuidei o nascimento dos pintinhos, nadei com os peixinhos, enfim, sou a Menina de trancinhas que ficava horas no colo do pai, em lindas noites pantaneiras  enluaradas...

Na rede, inalando fumaça, fechei os olhos molhados e voltei ao Pantanal, de hoje, para poder sentir, profundamente, o desalento dos bichos, ouvi o bater das asas dos pássaros, percebi o movimento desesperador de cada espécie em fuga. Imaginei a dor, o pavor dos bichos e do povo pantaneiro, cujas retinas, agora, perpetuar-se-ão com as imagens torturantes, com dores, indizíveis,  na alma, no coração e com a vida devastada.

Contraí-me para ser mais fetal e experimentei a limitação de um corpo de 56 anos, desejoso de um ventre para abrigar-se, introjetar-se na infância e voltar a soltar bolinhas de sabão, em longos talos de mamão, soprando pelos ares espumas, afinal, no Pantanal, a casinha era de pau, o chão era de terra batida e a cobertura era de palha e ali era perto de lugar nenhum... cochilei, chorei, aninhada, a”fetada” com o céu embaçado, embalada pela tristeza em saber que foi gente, pessoa humana, racional, cruel, egoísta e do mal que ateou o fogo no Pantanal.

 

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