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Rosildo Barcellos

As Sandálias de Frei Mariano

Uma das mais famosas lendas da região pantaneira enfoca na pessoa de Frei Mariano, que ficou marcada por uma guerra pessoal com um político da época, dono de um jornal. Considerado um herói da Guerra do Paraguai, Frei Mariano foi nomeado Pregador Imperial com honras de Major do Exército Brasileiro, por Carta Imperial de 08 de outubro de 1873. Os fatos históricos foram extraídos além da oralidade da população, foram oriundas de dois livros um escrito por Frei Alfredo Sganzerla, A história de Frei Mariano de Bagnaia, Edição FUCMT -1992, que eu li na época que cursava a faculdade de Direito, naquela instituição de ensino e o livro Memórias da Grande Guerra, organizado por Valmir Batista e Lúcia Salsa Corrêa.

É cediço que para a foz do Rio Salobra refugiaram-se numerosos moradores do município de Miranda, em face da invasão das tropas paraguaias, nos primeiros dias de 1865, sendo libertado pelo exército brasileiro em 16/08/69 e reconduzido para Cuiabá. Entre aqueles estava Frei Mariano de Bagnaia, que logo depois seria feito prisioneiro e levado para a República do Paraguai. Dessa época há relatos de que o Frei teria sido colocado em um poço com serpentes, para contar o que sabia sobre a localização de tropas brasileiras.

Frei Mariano nasceu em 19 de janeiro de 1820 em Bagnaia na Província de Viterbo, Itália. No batismo recebe o nome de Saturnino Colonna. Professou no Convento de Rietti na Província Romana no dia 14 de março de 1839. Logo em seguida foi designado para o Convento de Vivel. No capítulo provincial de 1839 começa os estudos filosóficos no convento de Valletri e conclui em Genin.

Em 17 de outubro de 1846 veio sua indicação de missionário no Brasil, aonde chega no dia 04 de março de 1847. Dois meses depois é designado a trabalhar na missão do Mato Grosso. Por três anos atua na região de Cuiabá, especialmente em Diamantino e Brotas e em dezembro foi enviado para Albuquerque junto aos índios Terena e Guaicuru.

Em 12/1869 toma posse na forania de Miranda como representante do bispo no Baixo Paraguai. Em seguida (24/01/1870) vigário em Corumbá onde permanece até 1886. No dia 25 de maio de 1870 lança a pedra fundamental da nova matriz que será concluída em 24 de outubro de 1877. Em 24 de novembro de 1884 começa a igreja do Ladário. Por conflitos de religião em março de 1886, despede-se de Corumbá e vai para o Rio de Janeiro.

Pelos superiores é designado em 20 de junho de 1887 vai para São Paulo para organizar a Catequese naquela Província. Em 7 de maio de 1888 chega em Campos Novos. Em 21 de junho 1888, já sem controle mental tenta suicidar-se em São Pedro do Turvo. Levado a Campos Novos falece em 9 de agosto de 1888.

Mas voltando para a lenda consta que o religioso mandou erguer, em 1885, a igreja Nossa Senhora da Candelária, e colocar em cima um relógio, o que aconteceu em 1887. Diante disso, um político local garantiu ao Frei que arcaria com todos os custos. Empolgado, Frei Mariano trouxe da Itália um relojoeiro especialista para fazer o serviço que ao ser terminado revelou uma triste surpresa: o político não quis pagar o profissional internacional, que, indignado, começou a asseverar que Frei Mariano, não cumpria com suas obrigações. Para a sociedade da época, a ofensa era muito grave. Ao mesmo tempo, o dono do jornal da cidade, iniciou uma campanha difamatória lançando a manchete de que Frei Mariano havia dado “moratória infinda” no relojoeiro Italiano. Os fatos ganharam repercussão e as pessoas começaram a boicotar a missa, criando grande desconforto para a igreja.

A celeuma provocou a transferência de Frei Mariano de Bagnaia para a província de São Paulo e uma cena que iria se eternizar na história corumbaense. Revoltado, ao entrar no trem que o tiraria de Corumbá, o religioso pegou seus chinelos, bateu e disparou a célebre frase: “Desta cidade nem o pó levarei”. Conta a lenda, ainda, que o religioso teria inclusive enterrado suas sandálias em um local desconhecido na cidade e que somente depois de encontrá-las Corumbá, a Cidade branca, voltaria aos trilhos do desenvolvimento. A “praga rogada” teria condenado Corumbá à estagnação e pobreza por 100 anos, enquanto não fossem descobertas as sandálias enterradas.

Coincidência ou não, a Capital do Pantanal sofreu um período de estagnação econômica com a derrocada do comércio fluvial, que na época era intenso. Retomada em 13 de junho de 1870, expandiu-se com a abertura dos portos tornando-se o terceiro maior entreposto fluvial da América Latina. Foi o embrião do Mercosul, a primeira cidade da região a manter relações comerciais com Argentina e Uruguai, Por seu porto passavam navios transatlânticos, a moeda predominante era a esterlina e operavam 20 bancos, dentre os quais o City Bank. A agência local do Banco do Brasil era a 14ª do País, quando algumas cidades, hoje metrópoles, não contavam com a instituição financeira. E realmente a cidade entrou em decadência e chegou a reduzir sua população em 1980, segundo o IBGE, depois de somar com o triplo de habitantes de Campo Grande, em 1912.

A hoje capital de Mato Grosso do Sul, ao contrário, passou de 5.115 moradores naquele ano para 21.360 em 1920. A inesperada cheia do Pantanal, em 1970, dizimou milhares de cabeças de gado, foi mais uma tribulação a ser suplantada. Como contraponto desse período de enfraquecimento econômico, foi instalada na cidade a primeira indústria de Mato Grosso, a Cimento Itau, hoje controlada pela Votorantim. Outro detalhe, apesar de Campo Grande ter sido o primeiro local de recepção sonora em Mato Grosso do Sul, a primeira transmissão ocorreu no município de Corumbá com a rádio “A voz de Corumbá” instalada inicialmente em 1930 pelo engenheiro corumbaense Carlos Miguel Mônaco. Com recursos próprios, montou um transmissor de pequena potência na garagem de sua residência. A emissora foi inaugurada oficialmente em 13 de junho de 1935 na década de 1950, é construído o primeiro arranha-céu do Estado – o Edifício Salim Kassar com 11 andares de apartamentos, na rua 13 de Junho, em frente à Praça da Independência. Mas o Anel Viário de 11,9 km em direção à Bolívia, projetado em 1973, foi construído somente em 2010.

Atualmente, a população até brinca com o episódio, tanto que para o carnaval foi criado o bloco carnavalesco “Sandálias do Frei Mariano”. O paulista José Antônio Garcia, conhecido popularmente como Tanabi, foi o primeiro a desfilar caracterizado e ele me contava que foi algo que o marcou, pois no final da festa, já na avenida, um grupo de pessoas embalado pelas etilidades da esquina, olhava para ele, vestido de Frei Mariano, e falavam : “vamos acabar com a praga jogada na cidade e vamos jogar esse Frei no Rio Paraguai”. E “sebo nas canelas” ... , puxou a batina que vestia e saiu em desabalada carreira, com dezenas de pessoas atrás dele, aos brados “alcança, pega, esfola!”...e dizem que tem gente até hoje procurando por essas sandálias.

 

* Rosildo Barcellos é articulista com 1500 publicações entre dísticos, sonetos, odes, contos e aldravias, transitando pelos gêneros líricos, épicos e dramáticos, neste texto em especial para “O Pensador”; traz a lenda das “Sandálias de Frei Mariano”; que faz parte do imaginário realístico da Cidade Branca e da Pérola do Pantanal, cidades irmãs bicentenárias, denominadas Ladário e Corumbá, que fazem divisa com Puerto Quijarro na Bolívia. 

Barcellos. é colunista do “O Pantaneiro” tendo sido laureado com as Comendas Personalidade literária 2022 pela Academia Literária Internacional de Artes, Letras e Ciências, assim como da Ministro Wilson Fadul, Vespasiano Martins, Germano Carretoni, e Visconde de Taunay.. Também homenageado com as medalhas Antônio Felix Filho, Zumbi dos Palmares, do Mérito Pantaneiro e Francisco Anselmo de Barros. Recebeu os títulos de cidadão dos municípios de Anastácio, Aquidauana, Bodoquena, Corumbá, Dois Irmãos do Buriti e Miranda, todos da região pantaneira. É Doutor Honoris Causa em Literatura e participou das antologias Flor de Plátano, Versos vivos - poesia presente, Coletânea Internacional Infinito Olhar além dos e-books Quintal Poético e Poesias de Quarta. Foi conselheiro de Políticas Culturais em Ladário na gestão 2016 e em Corumbá na gestão 2020. Texto extraído da IIª coletânea “O Pensador” Livro editado pela ACCUR – Academia de Cultura de Curitiba

** A foto é de Rachid Waqued, filho de pai libanês e mãe nascida em Corumbá, descendente de sírios, Rachid nasceu em Campo Grande, em 19 de outubro de 1953. É formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), pós-graduado em Marketing. Cursou as faculdades de História e Artes Visuais. Lecionou a disciplina de Fotografia, nos cursos de Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Rádio e TV, nas Universidades Dom Bosco e Federal do Mato Grosso do Sul.

Participou de várias exposições coletivas e realizou 23 exposições individuais. Tem publicado seus trabalhos, sejam fotográficos ou textos relativos à fotografia, em revistas tanto nacionais e internacionais. Com trabalhos expostos em vários Museus Nacionais. Tem atuado em pesquisas que visam resgatar e dar visibilidade aos trabalhos dos fotógrafos pioneiros do Mato Grosso do Sul.

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