Quem daqui de MS nunca ouviu histórias de parentes antigos que integravam as famosas comitivas de gado, levando a boiada de lá pra cá nos períodos de cheias no Pantanal sul-mato-grossense?
Sempre havia um “causo” curioso sobre a vida desses boiadeiros. Mas o ponto alto dessa cultura tipicamente sertaneja definitivamente é a comida, riqueza-raiz que atesta a identidade cultural do verdadeiro homem pantaneiro.

Em tempos modernos, dos famosos fast foods, como é difícil encontrar locais que ofereçam uma autêntica comida campeira – não é à toa que no próximo domingo (7) Aquidauana realizará mais novo Encontro de Comitivas, já em sua sétima edição. Na ocasião, alimento bom não vai faltar.
Entre as principais comidas típicas das comitivas estão o arroz carreteiro, feijão tropeiro (com joelho de porco, ok?), mandioca, farinha e macarrão tropeiro – aquele quebrado e frito na banha do porco, com carne de sol.

Você até pode conferir receitas na internet e tentar fazê-las em casa, mas jamais serão executadas conforme preparam os cozinheiros das comitivas, quando levavam os dobros e bruacas – como são chamadas as tralhas de cozinha – com os mantimentos, sempre à frente da boiada.
Mas é importante saber que também existe um ritual "sagrado". Abaixo, confira algumas das organizações que são seguidas à risca pelos integrantes do grupo até os dias de hoje:
- A trempe (fogão à lenha) é instalado com a parte oposta à da colocação da madeira voltado para o sentido que a comitiva está se dirigindo.
- A madeira utilizada no fogo deve ser, preferencialmente, angico – providenciada pelo próprio cozinheiro.
- As bruacas seguem o rito da trempe, que devem ficar com o lado de abertura das tampas voltadas para o sentido do destino da comitiva.
- As bruacas não poderão ser colocadas diretamente no chão, mas depositadas sobre pedaços de madeira.
- Os bancos que ficam próximos à trempe serão utilizados unicamente para a colocação das panelas – em hipótese alguma os peões poderão utilizar-se destes bancos para sentar – sob pena de pagar prenda, que neste caso será uma leitoa ou um carneiro.

- Os peões não poderão tirar o chapéu na hora do servir das panelas, sob pena de "doação" de galinha.
- Os peões não poderão tirar as tampas das panelas e colocar de lado – a tampa deverá ficar presa a um dos dedos da mão que está segurando o prato. Após servir-se, coloca-se a tampa novamente sobre a panela. No caso de infringir este regulamento, a prenda também é de uma galinha.
- O cozinheiro não poderá fazer a comida sem chapéu e sem camisa. Em alguns casos, o cozinheiro utiliza boné. Pena da infração aqui será de uma leitoa ou carneiro.
- Havendo algum acidente na cozinha – como virar uma panela por culpa do cozinheiro – ele também deverá pagar uma prenda.

- Para tomar o café, existe um recipiente com água quente que as xícaras ficam imersas. Deve-se retirar uma das xícaras com um gancho apropriado, servir e tomar o café, e novamente colocar a xícara na vasilha com água quente.
- Assim como antigamente, é uma refeição de "rapar o prato". Então, ao terminar a refeição o peão não poderá deixar resto de comida no prato: terá que limpá-lo para depois colocá-lo na bacia apropriada para este fim.
- A água de beber fica acondicionada em um latão pendurado em algum galho de árvore, junto com duas canecas de alumínio: a da direita serve apenas para retirar a água do latão, que é transferida para a outra caneca, à esquerda, de onde se bebe. Ou seja, a caneca suja de saliva nunca é colocada dentro do latão.