O pequeno município de Anastácio, com pouco mais de 24 mil habitantes, terá reconhecimento nacional a partir do dia 8 de novembro, data que se inicia o Campeonato Brasileiro de Boxe Olímpico. Tudo graças ao atleta Weslley Ramos, de 21 anos, que concorrerá a modalidade meio médio ligeiro ? destinada a lutadores com 64 quilos.
No entanto, o jeito tranquilo de Wesley esconde o passado de rebeldia do rapaz, que fugiu da casa, em Pernambuco, aos 13 anos de idade, juntamente com o irmão, e vieram para Aquidauana morar com o pai. Aqui se envolveu com bebidas e drogas, vendo na luta um meio para ?começar a aprender a brigar?, como conta o próprio Weslley.
A equipe do site O Pantaneiro foi até a Associação de Boxe Aguilera?s para entender melhor a história do grande lutador do estado. Foi naquela Associação que o jovem, na época com 15 para 16 anos, entrou nas aulas de luta cercado pelas piores intenções. Todavia foi expulso pelo Professor Aguileras, de 65 anos, no primeiro dia de aula.
Devido a sua insistência, foi recebido novamente pelo Professor que percebeu a enorme força de vontade que Weslley tinha. Pouco a pouco o garoto foi aprendendo a ter disciplina, largou os vícios e se dedicou exclusivamente ao esporte.
No início, começou a treinar Muay thai com as instruções da treinadora Ingleds Aguileras, de 30 anos, que entre os anos de 1992 a 2007 se especializou em diversas lutas, como Kung Fu (Bicampeã do Brasil), Taekwondo (Campeã brasileira e estadual), Muay thai, Judô, Jiu Jitsu, Pankration (luta grega) e, por fim, o Boxe.
A treinadora relata que ?o bom lutador tem que ter talento e vontade, porém algumas vezes o sujeito tem talento, porém não tem vontade, neste caso se torna complicado conseguir evolução. Há casos, também, de pessoas que tem talento e vontade, o quê facilita muito para o aprendizado. Agora, o Weslley não possuía nenhum talento, no entanto, tinha muita vontade?.
O Professor Aguileras conta que já precisou mandar o jovem embora da academia, devido ao excesso de treinamento. ?Para chegar lá usou muito treino. Treinava no sol forte, iniciava às onze da manhã, e só parava quando eram 10 da noite?, revela.
Como antes falado, Wesley começou no Muay Thay e só se encontrou no boxe por acaso. O lutador, aos 17 anos, foi a Campo Grande, em companhia da treinadora Ingleds, para lutar em um campeonato de Muay thay, no entanto, quando chegaram à capital receberam a notícia de que não iria mais acontecer o evento. Estarrecida, a treinadora se empenhou em arranjar alguma luta para Wesley naquela noite para a viagem não se tornar sinônimo de perda de dinheiro e tempo.
Então ligou para o Presidente da Associação de Boxe e foi informada que estava tendo um campeonato de boxe no mesmo dia. Sem pensar duas vezes, Ingleds inscreveu o lutador mesmo sem ter nenhuma noção das técnicas de luta. Wesley apanhou do começo ao fim dos rounds, mas aguentou até o final, porém perdeu a disputa. Depois de sair do ringue falou para a sua treinadora ?agora vou treinar porque gostei desse negócio?, conta Ingleds.
A partir de então, começou a se dedicar ao boxe todos os dias com o professor. ?Se não tiver a base do boxe, nunca será um boxeador. Tem que saber como sair e bater a 90°; como bater na boca do estômago,? explica. Todo treinamento resultou em cinco títulos de Campeão Estadual de Boxe (2011 a 2015), já no primeiro Estadual ganhou por pontos e recebeu o prêmio de Atleta Revelação. No segundo recebeu o título de Melhor Luta. Neste último, venceu por nocaute ainda no primeiro round, sendo um dos responsáveis em dar o Troféu de Equipe Vice-Campeã a Associação de Boxe Aguilera?s.
Apesar de todo o talento comprovado, ainda não há muito incentivo vindo do governo, levando em conta que o município de Aquidauana pouco ajudou o competidor, mesmo com os cinco títulos conquistados em nome da cidade.
Agora a situação começou a mudar, afinal, a prefeitura de Anastácio vem ajudando, e muito, o atleta. Tendo em vista o prefeito da cidade, Douglas Figueiredo, disponibilizou as passagens para o boxeador ir até Sergipe, para participar do Campeonato. O vereador Murilo Valério também tem dado total apoio a visibilidade da causa, além do padrinho da equipe Aguillera?s, Edson Paim, do Portal do Pantanal, que legalizou todos os documentos da Associação.
Atualmente a Associação de Boxe Aguilera?s recebe de 40 a 50 alunos, sendo que a maioria faz parte de um projeto social e não paga para ter as aulas. Por causa de toda trajetória de espalhar o esporte às crianças e adolescentes, a Associação recebeu um troféu de Honra ao Mérito, que acaba incorporando as dezenas de outros troféus conquistados pela equipe de atletas.
O próximo objetivo de Wesley Ramos está em conseguir o auxílio que a Confederação de Boxe oferece aos quatro primeiros colocados no Campeonato Nacional de Boxe Olímpico, que este acontecerá em Sergipe, do dia 08 a 15 de novembro. O lutador se considera ?confiante, porém nervoso? para todo esse desafio.
O jovem pretende seguir os passos do boxeador olímpico, Mike Carvalho, que já está há 15 anos na seleção, conseguindo casa e academia própria, na qual, agora ensina outras crianças interessadas no esporte. As próximas semanas serão decisivas para que os sonhos de Wesley Ramos se tornem realidade. E quem sabe aquele garoto que veio fugido e viveu no álcool e drogas, daqui alguns anos se torne lutador de boxe profissional e chegue até mesmo a disputar Olimpíadas representando o Brasil.