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Entrevista

Dia Nacional do Fotógrafo: Luiz Felipe Mendes, um olhar apaixonado pelo Pantanal

Profissional "deixou" o cargo de biólogo para se dedicar aos registros na maior planície alagada do mundo

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O Dia Nacional do Fotógrafo, comemorado nesta segunda-feira, 8, evidencia a beleza de quem captura um momento para eternizar. O pantaneiro de coração, Luiz Felipe Mendes, é a prova de que a paixão pela fotografia fala mais alto que a formação, pois "deixou" a formação de biólogo para se dedicar a fotografia profissional. 

Em entrevista ao O Pantaneiro, Luiz não esconde a emoção que só o fotógrafo que percorre o Pantanal sul-mato-grossense conhece: a luz, fauna, biodiversidade e o cheiro do solo. A sensibilidade do profissional, que atua há sete anos, já ganhou prêmio no Brasília Photo Show, o maior festival de fotografias da América Latina.

Foto que retrata 'lida pantaneira' foi premiada em um festival internacional - Foto: Luiz Mendes

"A fotografia sempre teve muito presente na minha vida. Meu avô, ele é de ascendência alemã, então ele sempre ia para a Alemanha, e aí sempre trazia equipamentos fotográficos. Então, na minha infância toda, a fotografia não era incomum, ele tinha o hábito de fazer registros fotográficos. Sou campo-grandense, mas eu cresci aqui na região de Aquidauana, Dois Irmãos Buriti (..)  Cresci na Estrada Parque, há 20 anos, quando ela era pouco utilizada, quando não tinha asfalto, quando não tinha um turismo igual tem hoje. E todos esses fatores de viver no interior do Mato Grosso do Sul, lugar fascinante, a Serra de Maracaju, incrível, vegetação preservada, tudo isso sempre me ganhou. Eu sempre tive um olhar muito atento para a questão de natureza.

 
O fotógrafo destaca a sua paixão pela fotografia, onde levou a abandonar a formação em biologia para se dedicar totalmente à arte de capturar momentos e eternizá-los através das lentes.

“Me formei em biologia justamente para entender essa dinâmica biológica. A questão de biodiversidade, de onde a gente vive, e quando eu comecei a fazer a faculdade eu comprei equipamentos próprios, antes do meu avô que tinha, então eu comprei equipamentos para poder registrar minhas aulas de campo, tanto para utilizar nos trabalhos da faculdade como para mostrar para os familiares, porque na época o Pantanal não era tão comum assim, não faz tanto tempo, mas até hoje para a população local o Pantanal é uma coisa muito distante, de fora, agora, depois da pandemia, que a galera começou a vir mais. Terminei a faculdade, trabalhei com consultoria ambiental, depois fui para docência, e todo o dinheiro que eu ganhava eu investia no equipamento fotográfico, porque era meu momento de lazer, meu hobby era fazer fotografia. Até que um dia tive uma oportunidade de começar a trabalhar com foto no Pantanal, saí da docência, comecei a trabalhar com fotografia. Logo depois recebi uma proposta para trabalhar com cinematografia, trabalhar com vídeo e, atualmente, trabalho com produção audiovisual de uma forma ampla, tanto vídeo quanto foto, às vezes só com roteiro, enfim, trabalho com a produção audiovisual, mas a fotografia, ela segue sendo meu trabalho, eu gosto muito de fotografar, até nos momentos de descanso eu saio para fotografar, isso já faz sete anos ao todo aí, eu comecei com a fotografia profissionalmente em 2016. O Pantanal me inspira, ele sempre foi muito inspirador. A facilidade com que a gente vê animais ali é incrível, então qualquer pessoa que tem um olhar atento, um olhar de ver a natureza, vai para o Pantanal, ela se encanta, não é à toa que o Pantanal é um dos maiores destinos para observação de vida selvagem. Me encanta também pela sua sazonalidade, o Pantanal nunca tá igual, vai 12 meses do ano para um mesmo lugar e tá diferente, às vezes tá na época de vazante, tá chegando água, outra vez tá extremamente cheio, outra hora extremamente seco, outra hora com flores de piúva, outra hora com flores de paratudo, outras horas de cambará, enfim, tem essa dinâmica toda do Pantanal, então é muito legal de observar toda essa dinâmica, um lugar nunca vai ser o mesmo no Pantanal, ele é dinâmico demais, isso me fascina".

Luiz destaca a paciência como uma virtude fundamental para os fotógrafos de vida pantaneira - Arquivo Pessoal

Para isso, o profissional mistura os conhecimentos de técnicas fotográficas, como os efeitos de luz, ângulo, profundidade e, claro, a tela e a lente. Luiz dispara que o essencial nos casos de registrar a natureza prevalece: o fascínio pelo Pantanal. 

"Quando a gente fala de natureza, já comentei que a natureza é muito dinâmica, então, a primeira coisa que um fotógrafo de natureza precisa ter é paciência, ele precisa aguardar, você não vai chegar e já vai ver os bichos, tem todo um processo, tem todo um caminho a percorrer, às vezes é calor, às vezes está chuvoso, às vezes está em cheia, você só vai andar descalço dentro da água então primeiro o conselho é paciência. O segundo é a bioética, a gente está no lugar de natureza, a gente vê que hoje as redes sociais estimulam as pessoas a fazer registros para mostrar nos seus perfis, mas muitas vezes as pessoas extrapolam os limites. Você vê o comportamento do animal antes de chegar perto ou não chegar perto, se você não tem um conhecimento, se você não é capacitado para trabalho com fauna, mantém uma distância adequada, porque o bicho está paradinho, que você vai extrapolar. É um bicho que é irracional, racional somos nós, então, precisamos ter esse cuidado. Eu falo muito, você vai fotografar, vai fotografar a natureza, cuidado com os bichos. Sempre o maior prejudicado vai ser ele. Às vezes porque você interfere no comportamento dele, ele vai ter um dano no seu comportamento natural, e outras vezes você só pode sofrer um ataque, é um animal que está no meio da natureza, então você sofre um ataque e o culpado sempre vai ser o bicho, porque a gente tem essa mania de culpar os outros pelos nossos atos, ainda mais um animal que não tem como se defender, que é racional dele. Então, primeiro é a paciência, depois a bioética, e sempre. Eu sempre falo assim, acompanhar outras pessoas também que têm a expertise, isso é muito importante. Para mim, foi muito importante, eu sempre gostei muito de valorizar as pessoas que já tinham começado antes de mim, as pessoas trazem conhecimentos muito grandes, a gente pode compartilhar muito conhecimento. Hoje em dia tem muitos perfis que falam de detalhes da câmera, de como configurar, hoje nós temos celulares que fazem fotografias muito boas, então saber manipular, saber usar da forma adequada, o modo manual ali, velocidade, fotometria, todos esses detalhes aí, eles ajudam a valorizar muito a fotografia que a gente está fazendo. Então, acho que esses são elementos essenciais e gostar da natureza. A gente vive aqui na região de Aquidauana, dentro da cidade nós temos ambientes naturais fascinantes, a lagoa para mim é ser dentro da cidade, um ambiente aquático daquele, um centro. Com antenas de aves, com outros mamíferos ali, é encantador, então a gente tem acesso a essa fotografia de natureza de uma forma muito fácil, é aproveitar esses espaços também que a gente tem que são ofertados aqui dentro da cidade aqui da Aquidauana. Ressaltando também que é uma imagem que hoje compõe o acervo permanente do Museu de Aquidauana. Ela está em exposição no museu, juntamente com outras fotos, que foi outra área, uma área que eu acho muito bacana expor, estar num ambiente que reúne com outros artistas, de outras categorias, então é muito gratificante estar hoje no museu e com essa fotografia e também com outras, da Estrada Parque, que representam a nossa identidade".

Luiz Felipe Mendes continua a capturar a essência do Pantanal - Arquivo Pessoal

Mas se engana quem acredita que é sorte fotografar, os desafios variam de aguentar um calor de mais de 40°C, solos encharcados, mochila pesada de equipamentos e a paciência até o registro de ouro. 

"São vários fatores desafiadores, mas que a gente acaba acostumando. Para pessoas de fora é dificultoso.  Quanto a imagem favorita é aquela que retrata a cultura pantaneira, uma lida de gado, que ganhou em 2021 uma medalha de ouro dó ‘Brazilian Photo Show’, o quarto maior concurso de fotografia da América Latina, mostra a boiada no entardecer, tem a poeira subindo e as luzes do sol fazendo uma fumaça, com o gado se perdendo no meio da fumaça. Acho bacana porque muitas vezes a gente fala em Pantanal se pensa na biodiversidade, mas sou um defensor da cintura pantaneira, da pessoa pantaneira, a que trabalha na lida com o gado, ribeirinha, ao indígena Guató… Todas essas pessoas trazem a identidade do Pantanal. O Pantanal é muito dinâmico", finaliza. 


 

 

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