O ano foi de Olimpíada no Rio de Janeiro com um prometido legado de incentivo e de apoio ao esporte no país - foram gastos R$ 39 bilhões com o evento esportivo. Na prática, porém, a realidade dos atletas mostram que pelo menos no Estado, praticamente nada mudou. Depois da falsa expectativa criada com a suposta herança dos Jogos, alguns competidores encerram o ano com medalhas, conquistas e o mesmo desafio pela frente: vencer a falta de apoio para continuar competindo.
Ajuda de amigos, rifas e almoços beneficentes continuam sendo o caminho para o custeio das viagens. No caso do corredor de rua, Vilmar Roberto Dias, a inscrição da São Silvestre foi paga com dinheiro do próprio bolso. Foram R$ 160 para participar da mais tradicional corrida brasileira, mas falta agora, recursos para custear a viagem até São Paulo - a corrida será em 31 de dezembro.
Mesmo sem saber se vai para a disputa, Vilmar continua os treinos diários que foram divididos em dois períodos. Isso porque voltou a trabalhar como mecânico para manter o sustento. ?Treino às 5h30, antes do expediente. Vou para o serviço e depois volto a treinar às 18h30. Por dia são entre 25 e 30 quilômetros?, explica.
Em duas participações na São Silvestre, o campo-grandense conseguiu terminar entre os 50 melhores do pelotão de elite, com 160 competidores. A ideia era melhorar o rendimento, neste ano, mas os planos foram adiados. ?Queria treinar na altitude, em Cochabamba (Bolívia) mas faltou apoio. Todos os atletas de ponta fazem isso, se preparam, chegam bem na prova?.
Os irmãos Luís Felipe e João Vitor Vieira, também sofrem com a falta de apoio no Jiu-Jitsu. O gasto médio mensal das viagens é de R$ 200, para cada. ?Já deixamos de competir por falta de dinheiro. Na maioria das vezes, nosso mestre (professor Thiago Nunes) tira do próprio bolso para nos ajudar?, afirma Luís, dono de cinco medalhas de ouro na última etapa estadual de Jiu-Jitsu.
O próximo desafio será em Corumbá, em uma disputa marcada para fevereiro. Até lá Luís, o irmão e a parceira de treino Aline de Souza vão em busca de patrocinadores. ?Está muito difícil conseguir patrocínio hoje em dia. Já tentamos fazer churrasco, mas não conseguimos o dinheiro para comprar a carne?, revela o lutador.
No esportes coletivos a situação não é diferente. As jogadoras da equipe Campo Grande Cobras se unem na promoção de eventos para as disputas de Flag Football - versão do futebol americano. O custo médio de uma viagem para São Paulo, por exemplo, fica em R$ 9 mil, com ônibus fretado. Outros R$ 2 mil são para a inscrição de cada uma das atletas nos torneios.
Todo esforço vale a pena, principalmente, com os resultados em campo. A equipe conquistou o título inédito da Superfinal do Circuito Nacional de Flag Football 5x5. Nesta disputa, realizada em novembro, a equipe não precisou viajar. O evento foi realizado no Centro o Centro Olímpico da Vila Nasser, na Capital, e as jogadoras puderam economizar.
Mas em fevereiro, as meninas do CG Campo Grande terão pela frente as semi-finais do Campeonato Paulista Fefasp. Até lá, elas também buscam meios para bancar a viagem. ?Falta apoio, mas nunca deixamos de competir. Se precisar tiramos dinheiro do bolso?, diz Lidiane Lira, presidente da equipe.