dothCom Consultoria Digital
Publicado em 01/02/2008 às 18:11
Atualizado em 10/09/2026 às 13:53
Sexta-feira de Carnaval não tem pra ninguém. É a noite onde prevalece a irreverência dos "blocos de sujos" que se perpetuam em Corumbá através do espírito festeiro do povo. Os blocos de sujos podem ser considerados o momento mais democrático da folia, afinal não é preciso ter um abadá ou fantasia específica para entrar na brincadeira. O pré-requisito para participar é montar um figurino bem divertido e criativo com aquelas peças que se tem em casa.
Vale tudo na busca do modelo perfeito que, diga-se de passagem, quebra todas as regras da arte de bem vestir. Os homens buscam aquelas peças da mãe, tia e irmã, que estavam guardadas lá no fundo do baú. Misturadas sem muito critério, elas compõem um "look diferente" do habitual, dando o ar caricato.
Alguns preferem mesmo comprar ou confeccionar as roupas, chegando a "copiar" personagens com destaque no cenário nacional. Ainda fazem parte da transformação perucas, sandálias e sapatos de salto alto e acessórios como cintos, colares, brincos, pulseiras. A finalização fica a cargo de uma maquiagem marcada pelo exagero e cores que fogem ao convencional.
Para o público feminino, a situação é experimentar o processo inverso. Gravatas, bermudas, meiões, bonés são as peças que mais se destacam e, a partir delas, nasce um "time" de personagens como jogadores de futebol, empresários, bicheiros e tudo mais o que a criatividade mandar.
Amizade e folia - Mas o que leva milhares de foliões de várias idades a participarem desses blocos, além do gosto pelo carnaval? A resposta é sempre a mesma: a amizade. Isso porque quem sai nos "sujos" nunca está sozinho, mas sempre acompanhado de amigos.
Para Walter, Heraldo, Yano, a folia em blocos de sujos reforça a amizade de longa data. O trio desfila com os sujos há cerca de 10 anos, porém, antes já participavam da folia. O mais antigo na brincadeira é o funcionário público Heraldo Santos Cunha, 54 anos, que quando perguntado sobre o tempo exato em que desfila prefere calcular com a lembrança da peruca que usa todo ano. Num tom loiro escuro e feita com cabelos naturais, a peça já tem 15 anos de uso ininterrupto. "É a minha marca", garante ao dizer que o lema na hora da produzir o visual é "quanto mais ridículo, melhor."
A responsável por deixar as "madeixas" em bom estado de conservação é a esposa Vera que também fica responsável pela escolha do figurino que por dois anos já arrebatou o título no concurso do bloco Cibalena, o mais tradicional da cidade. Ela também não dispensa entrar na festa de verdade e acompanha o marido fantasiada, usando as roupas dele. Enquanto os cabelos são a marca de Heraldo, a boca é a característica singular do engenheiro eletricista Katsuhiko Yano. Ele explica que prefere a descontração dos blocos de sujos para curtir o carnaval. "A gente não precisa ficar preocupado com evolução, em fazer tudo certinho como numa escola de samba. A gente desce com a latinha na mão, se divertindo", explicou ao dizer que a esposa Suely também o acompanha ficando responsável por retocar o batom durante todo do desfile.
Marido da cabeleireira Maria Eugênia, Walter Paiva nunca se preocupou com o visual. Aliás, ela explica que a partir das 15 horas do sábado, o salão é reservado somente para montar as "garotas". A profissional da beleza é quem escolhe os tons da maquiagem e depois de alguns minutos os amigos estão "mais próximos de uma figura feminina", como explica a cabeleireira que ainda produz o sobrinho Fernando, o caçula da turma.
Com roupas, acessórios e maquiagem, eles não fogem ao ritual do desfile para as esposas e filhas, pois é assim que os amigos ganham novos nomes de acordo com a "exuberância" que cada um adquiriu. Heraldo é rebatizado de Bebe Amargo; Yano de Kimiko; Walter, Manuela Portuguesa; e Fernando, Cabocla Nanda.
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