dothCom Consultoria Digital
Publicado em 19/02/2008 às 07:35
Atualizado em 10/09/2026 às 13:53
A Vale anunciou nesta segunda-feira que após meses de negociações fechou acordos com siderúgicas asiáticas para aumentos de 65 e de 71 por cento nos valores do minério de ferro que exporta.
Os aumentos ficaram acima do que era esperado pelo mercado, de algo entre 30 e 50 por cento, elevando os papéis da empresa na Bolsa de Valores de São Paulo. Analistas disseram que o fato eleva o poder da empresa na negociação para a compra da mineradora anglo-suíça Xstrata.
De acordo com a Vale, o minério do Sistema Sul e Sudeste (Minas Gerais), a maior parte dos volumes exportados, terá um reajuste de 65 por cento, enquanto o produto proveniente de Carajás, no Pará, recebeu um prêmio de preço e subirá 71 por cento.
O minério de ferro corresponde a cerca de 40 por cento da receita global da Vale. O ajuste de pelotas, um minério enobrecido, responsável por 9 por cento da receita da Vale, ainda não foi fechado.
Essa é a primeira vez que a mineradora brasileira consegue preços diferenciados para o ajuste do minério e reflete a melhor qualidade do produto retirado do Pará.
O complexo de Carajás produz cerca de 93 milhões de toneladas de minério por ano e está em processo de expansão. O Sistema Sul e Sudeste produz 203 milhões de toneladas.
"O anúncio de um reajuste desta magnitude é altamente positivo para a Vale, principalmente diante da grande incerteza sobre o cenário econômico nos EUA e seu impacto no mundo", afirmou Rodrigo Ferraz, analista da Brascan Corretora.
Perto do fechamento, as ações da Vale subiam 5,4 por cento na Bovespa, enquanto o índice geral da bolsa subia 2,3 por cento.
Os primeiros contratos foram assinados com as asiáticas Nippon Steel, do Japão, e Posco, da Coréia do Sul, contrariando a expectativa inicial do mercado de que as siderúrgicas chinesas lideradas pela Baosteel seriam as primeiras a fechar o novo preço.
Também já acertaram com a mineradora brasileira as japonesas JFE Steel Corporation, Sumitomo, Nisshin e Kobe Steel. A China, principal cliente da Vale e responsável por 18 por cento da sua receita, ainda não fechou.
Pela tradição do setor, o primeiro acordo fechado entre uma mineradora e uma siderúrgica é seguido pelos demais agentes do mercado. Este ano, no entanto, segundo fontes de mercado, BHP e Rio Tinto, concorrentes da empresa brasileira, estariam pleiteando um aumento maior.
"Os preços para 2008 refletem a continuidade do excesso de demanda no mercado global de minério de ferro", afirmou a Vale em um comunicado.
Para a analista Luciana Leocadio, da corretora Ativa, o novo preço deve ser tomado como base nas negociações das mineradoras australianas, mas é possível que elas também obtenham preço diferenciado.
"O reajuste firmado com a Nippon Steel e Posco deverá balizar o processo de negociação daqui para frente, mas poderemos ter algumas diferenças em relação às mineradoras australianas, que buscarão obter um prêmio de frete que reflita a maior proximidade que possui das siderúrgicas asiáticas", avaliou.
Os novos preços de referência, em tonelada métrica seca (dmt), são 1,1898 dólar por unidade de ferro para o Sistema Sul e 1,2517 dólar por unidade de ferro para o minério de Carajás.
Para o analista do ABN Amro Pedro Galdi, o valor obtido pela Vale junto às siderúrgicas foi "excelente", e a tendência é de que os outros clientes, inclusive a China, sigam o ajuste.
Para ele, o aumento dá ainda mais força para Vale fazer nova oferta pela mineradora anglo-suíça Xstrata.
"Isso ajuda e muito, mas vamos ver qual a decisão dela, se vai aumentar a oferta", disse Galdi à Reuters.
Uma fonte próxima às negociações entretanto informou à Reuters que mesmo com o ajuste do minério acima do esperado pelo mercado a companhia não fará uma nova oferta.
"As ações da Xstrata estão artificialmente infladas, não acompanharam a queda do setor por causa da especulação de que seria vendida, ninguém quis vender os papéis", explicou a fonte.
"A posição dos negociadores hoje é de que o negócio dificilmente sai, mas ainda estão negociando", completou.
Galdi afirmou que o receio de perder a posição de grau de investimento poderá fazer com que a Vale evite fazer uma oferta excessivamente alta pela Xstrata.
O analista Eduardo Roche, da Modal, tem opinião similar.
"Fortalece ela (Vale) para manter o seu 'investment grade' e até tentar no financiamento (do negócio) ter uma taxa de juro mais razoavel, é um reforço de caixa importante", afirmou.
Ele acrescentou, no entanto, não acreditar que isso signifique que a Vale fará uma oferta acima do que considera justo.
A Vale admitiu há algumas semanas que estaria interessada em adquirir a Xstrata, produtora de cobre, níquel, carvão, entre outros.
Segundo fontes do mercado, a primeira oferta da Vale teria sido de 76 bilhões de dólares, ou 40 libras por ação, enquanto os acionistas da Xstrata teriam pedido 48 libras por ação.
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