dothCom Consultoria Digital
Publicado em 21/11/2008 às 15:51
Atualizado em 10/09/2026 às 13:54
Outro dia fui levado a opinar, em reunião informal, sobre a eventual criação de uma coordenadoria de cultura religiosa, no contexto da futura administração de Aquidauana. O assunto tem gerado crítica e equívocos de alguns setores. Gostaria de singularizar, como grande equívoco, a idéia de que estaria sendo criada uma coordenadoria estritamente para tratar das questões relacionadas aos evangélicos, pois isto fere o principio inalienável de que um governo é para todos. Até onde sei o que se cogitou seria a criação de um órgão voltado para dialogar com "todos" os segmentos religiosos. Daí, a pertinência da expressão "cultura religiosa".
Pesquisando sobre a existência de algum órgão similar na administração pública, não encontrei nenhum referencial. Acredito fielmente que na base desta ausência esteja o problema do diálogo religioso, quase impraticável no cotidiano humano, apesar das boas intenções de articuladores do movimento ecumênico.
Obviamente uma coordenadoria específica da cultura religiosa, seria algo novo. Como justificativa para a sua criação os articuladores da novidade poderiam lembrar que o ser humano é religioso por natureza. Na sua relação com o sagrado ele acaba produzindo símbolos, ritos e expressões que se incorporam à cultura. Também materializa a beneficência como expressão maior da práxis religiosa. Assim, uma coordenadoria teria a função de apoiar as manifestações historicamente mais importantes de cada vertente religiosa, elaborando um calendário específico e definiria, mediante critérios específicos, os projetos sociais que poderiam ser avalizados pela administração pública. Neste sentido, atuaria como uma ponte entre as associações/grupos religiosos e o poder público, através de suas várias gerências.
Mas, exatamente pela dificuldade histórica das religiões manterem uma base mínima de diálogo, acabei concluindo, depois de muita reflexão, que a criação deste órgão seria uma utopia. Depois de Babel, os homens jamais se entenderam, de forma plena. No campo religioso a diversidade de credos, que atesta, em tese, a possibilidade do homem exercer o seu livre arbítrio, inviabiliza a existência de projetos comuns, mesmo na área social. Entre os evangélicos interpreta-se esta realidade como conseqüência direta do pecado, ou seja, ela existe em tempo anterior à própria linguagem.
Diante desta percepção - e atento às manifestações dos formadores de opinião locais - entendo que a tal coordenadoria não deveria existir, pelo menos em Aquidauana. O futuro prefeito, Fauzi Suleiman, não precisa desta dor de cabeça. Por outro lado concluo que as associações religiosas devem mesmo ser ouvidas sobre parcerias por um departamento específico da Secretaria/Gerencia de Promoção Social. Caso ela venha a existir, contudo, a tarefa de encontrar alguém totalmente isento de quaisquer pressupostos religiosos para definir parcerias entre o poder público e estas instituições não será fácil. Até por isto, teria o meu apoio incondicional.
Vivaldo S. Melo
Pastor Presbiteriano, pós-graduado em Ciências da Religião
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