O principal destaque do Índice de Preços ao Consumidor (IPC/CG) de 2010, calculado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômicas e Sociais (Nepes), da Universidade Anhanguera-Uniderp, foi o gasto em Alimentação. “A variação acumulada alcançou o patamar de 13,78%, muito acima da inflação acumulada em Campo Grande, que atingiu a marca histórica de 6,32%, a maior desde 2003, e além da meta prevista para o ano”, comenta o pesquisador do Nepes José Francisco dos Reis Neto.
Mas, de acordo com Reis, se o grande vilão da inflação em 2010 foram os gastos com Alimentação, no entanto, outros itens relacionados às Despesas Pessoais também merecem atenção na sua variação. “Costureiras, empregadas doméstica, manicures, médicos, dentistas e prestadores de serviços em geral aproveitaram o ano aquecido com o aumento da renda pessoal e repuseram os seus preços, recuperando as margens reprimidas dos anos anteriores. Os gastos com serviços pessoais, vestuários, calçados e acessórios ficaram acima da inflação do ano”, pontua. O pesquisador conta ainda que para as famílias campo-grandenses, os gastos com os serviços pessoais consumiram uma boa parcela da sua renda. De uma forma geral, as costureiras e as empregadas domésticas aumentaram os preços dos seus serviços em quase 11%.
Ainda no grupo Despesas Pessoais, as mulheres gastaram mais em função do maior reajuste de preços nos itens de higiene pessoal, beleza e vestuário. Tiveram deflação os itens absorventes higiênicos (-2,5%) e limpeza de pele (-6,2%). Os reajustes abaixo da inflação ficaram para os itens hidratante (5,0%), protetor solar (1,7%) e condicionador (3,1%). “Porém, o xampu aumentou 11,6%, e ficar bonita e manter a elegância custaram mais caro, já que os institutos de beleza aumentaram os preços acima da inflação, ficando com majoração de 33,2% no corte de cabelo, 17,2% na manicure e 27,5% na pedicure”, destaca Reis. Segundo dados do IPC, para elas, também ficou mais caro vestir. Apenas os vestidos tiveram uma redução de -12,5%, enquanto que bermudas (10,2%), blusas (10,0%), sutiã (6,9%), saia (8,5%) e calçados (36,7%) aumentaram os seus preços acima da inflação acumulada. Já os homens, de uma forma geral, sofreram menos com a inflação do ano. Foi observada a redução de preços para as camisetas (-0,7%), bermudas (-4,6%) e tênis (-10%). Os seus acessórios, com cintos, carteiras, aumentaram em 74%, e o corte de cabelo em 25%.
Diversão mais cara - A diversão também aumentou. As vídeolocadoras não reajustaram os seus preços de aluguel de filmes em DVD durante 2010. No entanto, ir ao cinema ficou mais caro. Durante os dias úteis da semana houve um aumento do ingresso de 8,3% e nos finais de semana, de 21,4%. A mensalidade dos clubes aumentou 7,5%. “As opções de lazer ficaram acima da inflação acumulada em 2010, mas mesmo assim o que se viu foram os cinemas batendo recordes de publico e os clubes sempre freqüentados pelas pessoas. Já a manutenção de veículos e estacionamentos não sofreu alteração de seus preços ao longo de 2010”, diz José Francisco.
Preços Administrados - Os preços administrados em tarifas de serviços como transporte, água, luz, telefone e cartório também influenciaram na inflação do ano passado. “Não foi observado aumento de tarifa de telefone, a luz subiu 1,7% e a água sofreu reajuste de 15,7% durante o período de outubro de 2009 a 2010”, explica Reis. Ele acrescenta que o transporte coletivo teve ajustes de preços abaixo da inflação. O interestadual foi majorado em 5% e o intermunicipal em 2,8%. Já o urbano não sofreu nenhum reajuste em 2010. Já com relação aos serviços de cartório, os usuários perceberam um aumento de preços na maioria deles. “Para se obter uma certidão negativa o cidadão pagou 12,5% mais caro, o reconhecimento de firma aumentou 6,5% e uma cópia autenticada custou mais 5,6%”, conta.
Educação, Saúde e salário mínimo - Os grupos Educação (6,25%) e Saúde (6,12%) tiveram os seus valores muito próximos da inflação do ano. “Se pensarmos nos ganhos reais do trabalhador, com uma variação positiva no salário mínimo previsto de R$545,00, a variação de R$35,00 sobre o valor vigente em 2010 de R$510,00, não deve repor as perdas com a inflação e as pessoas devem despender esforços para manter o seu poder aquisitivo”, pontua.
Expectativas para 2011 – De acordo com o pesquisador, a Alimentação deve ser um fato preocupante para o consumidor de Campo Grande. “Os preços dos alimentos ficaram altos e devem permanecer neste patamar em decorrência dos custos operacionais de produção, das taxas de juros e em parte um subproduto mais forte das recuperações econômicas da renda familiar. Os Alimentos sofrerão uma pressão de alta nos produtos agropecuários em função dos demais preços mundiais, associados aos problemas climáticos no mundo todo: do frio no hemisfério norte, inundações na Ásia e no Brasil, e seca na Argentina. O Brasil não tem problema de oferta, mas o preço internacional acaba puxando o preço interno”, explica.
Para Reis, o controle da inflação deve ser uma medida do governo que se inicia. “Preocupado com a possibilidade de aumento inflacionário, deve-se manter a política de juros altos, prevendo um crescimento econômico da ordem de 7% e aumento dos gastos públicos para reduzir a pobreza. Vários analistas acreditam que não deverá ocorrer muita preocupação com a disparada da inflação, considerando que a taxa Selic de 10,75% deve atrair muitos investimentos estrangeiros. Por outro lado, a subida do real frente ao dólar torna as exportações brasileiras menos competitivas. O ano de 2011 deverá ser de juros altos, restrições de créditos, encolhimento do déficit, esfriamento da economia, aumento dos gastos sociais e inflação dentro dos limites previstos”, comenta.
Mas, segundo José Francisco, em 2011, o foco de preocupação não deve ser o grupo Alimentação, e sim o de Serviços, pois estes são, ligeiramente, indexados. “Em Campo Grande os serviços e despesas pessoais tiveram aumentos e recuperações de preços acima da inflação medida durante o ano de 2010, e logo agora neste começo deveremos ter novos preços administrados, como por exemplo, o reajuste já autorizado da tarifa de saneamento em 8,91%”, fala. Ele acrescenta que “os preços administrados ajudaram a conter parte da inflação em 2010, depois de um ano de poucos reajustes, contidos pelo processo eleitoral”. Segundo o pesquisador, este comportamento não ocorrerá neste ano, e este grupo deverá ser mais um fator de pressão inflacionária. O Comitê de Política Monetária já sinaliza um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros, logo agora no inicio de janeiro, que direto ou indiretamente, irá atingir a economia local. “Já os preços livres permanecerão em patamar elevado, considerando que existe uma perspectiva de que o consumo tende continuar aquecido com a manutenção do ritmo do crescimento brasileiro, pois o comprador tendo condições realiza os seus sonhos, apesar dos juros altos”, finaliza.