Iniciativa do bem
Conheça o "ava akãrangue kytihã" ou "o lugar onde os indígenas cortam o cabelo"
Uma iniciativa está dando o que falar a 417 quilômetros de Aquidauana, no município de Amambai, região sul do Estado. Em resumo, se trata da primeira barbearia 100% indígena do Brasil onde – para ter a barba, cabelo e bigode feitos – tem que ter nascido sabendo falar a língua mãe. De forma estendida, é a ação de inclusão social e combate ao preconceito que a nossa região pantaneira também merecia ter.
No município de Amabai, a 417 quilômetros de Aquidauana, está a primeira barbearia 100% indígena do Brasil.
Com decoração alusiva à cultura e identidade indígena, por lá só se fala a língua materna guarani kaiowá.E pasme: ação cidadã que veio de um homem branco. Marcelo Cabreira de Oliveira é o barbeiro campo-grandense de 40 anos que resolveu investir no antigo endereço de sua loja a inclusiva GK Barber Indígena.
"A ideia surgiu há uns 3 anos. Minha esposa, que é formada em Ciências Sociais, lecionou na região de fronteira e lá encontrou a mesma dificuldade que posteriormente iríamos ter juntos, ela como empreendedora de uma loja de aromas na cidade e eu inicialmente com a barbearia em Aral Moreira: o diálogo com indígenas. Na época, ainda enquanto professora, se sentia frustrada por não conseguir se comunicar melhor", explica.
Aproximadamente, são mais de 13 mil indígenas na região em que Marcelo e sua esposa também vivem. Seja na área rural ou urbana, são grupos de pessoas que transitam socialmente. Nada mais justo do que voltar serviços exclusivamente à eles.
Marcelo (de azul) ao lado de Tato Souza, vereador e liderança indígena; na inauguração, teve até "bênção sagrada"."Percebia que os indígenas se sentiam desconfortáveis quanto à comunicação e acabava que a timidez e um serviço parcial reinava nessas horas", lamenta o barbeiro.
Mesmo que bolar um negócio mais inclusivo envolvia cultura, tradição e questões sociais que fugiam à sua vivência, Marcelo levou o que tinha em mente para a frente. "Apresentei minha proposta aos vereadores indígenas de Amambai, que por sua vez levaram aos representantes das aldeias", conta.
A resposta foi unânime: "'choramos muito de alegria e gratidão', disseram a mim na época. Ali, naquele momento, éramos todos irmãos", reflete.

Inclusão – Com o escrito "ava akãrangue kytihã" ou "o lugar onde os indígenas cortam o cabelo", a GK Barber Indígena teve início de trabalhos no último dia 12. Por lá, só se fala a língua materna guarani kaiowá.
No momento, são dois barbeiros que fazem o atendimento dos patrícios. Renando Moreira e Evaristo Rocha, respectivamente 24 e 40 anos. Inclusive, o mais jovem não somente é o atual profissional da loja, mas foi o primeiro cliente no esquema da barba, cabelo e bigode.
"Ainda, a barbearia foi preparada para receber os indígenas com escritos e decoração de artesanatos da cultura local, que vieram da Aldeia Amambai, pertinho da cidade", adiciona Marcelo.
Evaristo (na frente) e Renando (atrás) são os barbeiros que só atendem a clientela do "ava akãrangue kytihã".Se existe alguma diferença entre cortar o cabelo de um indígena comparado a de um homem branco? Claro que não. Entretanto, fica mais fácil, divertido e inclusivo quando se conversa em uma língua em comum, seguindo o mesmo discurso e respeito de quem se encontra no lugar de fala.
Quem sabe, inspirar outras localidades a também seguirem o exemplo. Fica a dica, Aquidauana!
"Mesmo que ainda pequeno, espero que esse projeto possa trazer orgulho a essa gente cheia de história, de cultura, memória e de muita sobrevivência. De alguma forma, que os indígenas consigam se inspirar mais e os empreendedores regionais possam ter uma atitude de igualdade, de inclusão, principalmente ao criarem negócios que os tenha como cidadãos e profissionais. Como deve ser direito de todos", finaliza Marcelo.
Conheça mais sobre a GK Barber Indígena no perfil do Facebook.
RECONHECIMENTO
Empresário de Aquidauana foi homenageado pelo Conselho Regional de Administração de Mato Grosso do Sul por sua trajetória no setor de gastronomia.
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